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O escravo eletrónico

Imagine que, um dia, chega ao trabalho e o seu patrão, ou superior hierárquico, lhe comunica que vai ter de dispensá-lo porque os seus índices de produtividade estão abaixo do desejável. Numa relação tradicional entre empregador e empregado, seriam trocados argumentos que validassem a tese de quem acusa (o empregador) e de quem se defende (o empregado). "Lamento discordar, mas o meu empenho não diminuiu e tenho trabalhado ainda mais tempo", alegaríamos em nossa defesa. "Pois, mas os dados da sua pulseira eletrónica dizem-me o contrário: o senhor esteve horas a mais parado e não despachou o serviço no tempo médio previamente definido, prejudicando, dessa forma, não só a performance da empresa, como minando a imagem de competência que cultivamos junto dos nossos clientes".

Por ora imaginário, este diálogo ameaça vir a tornar-se numa realidade a breve trecho. A Amazon acabou de patentear uma pulseira que permite controlar todos os passos (todos, mesmo) dos seus funcionários de armazém, transformando-os em humanoides. O objetivo da multinacional - conhecida por levar ao limite as capacidades dos trabalhadores, em troca de salários modestos - é reduzir ao máximo os erros e encurtar o tempo que cada funcionário despende na realização das tarefas diárias.

Para termos uma ideia da ambição com que a empresa encara esta tecnologia, a pequena trela permite localizar as mãos dos trabalhadores, conduzindo-as, através de impulsos, para as caixas com as quais devem interagir. O dispositivo inclui ainda um sistema de alertas por vibração cuja intensidade aumenta se o referido operário estiver a afastar-se do produto a recolher. Faz lembrar, numa imagem simplista, o jogo do "está frio ou está quente" que jogávamos em miúdos.

Naturalmente que a Amazon não explica nada para além do estritamente necessário. No limite, as fortes críticas que, um pouco por todo o globo, se foram escutando a este expediente abusivo, podem levá-la a abandonar a ideia. Mas o que é útil retirar deste teste é a forma como tudo está a precipitar-se depressa demais nas relações do trabalho. Sendo o emprego um bem cada vez mais precioso, ainda que assente progressivamente numa base precária, é natural que a capacidade de tolerância dos trabalhadores perante estas anormalidades aumente. É bom, por isso, que nos preparemos para o futuro, no que isso encerra de desafiante em tantos domínios, mas é fundamental que, a reboque dessa evolução "natural", não nos deixemos enredar num admirável mundo novo que, neste particular, apenas nos fará recuar uns séculos. Em vez de chicotes, são impulsos elétricos. É menos sangrento, mas não deixa de ser escravidão.

* SUBDIRETOR

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