Opinião

O Governo foice

A cola que juntou PS, CDU e BE num acordo político histórico só agora começará a dar provas do seu poder de aderência. A vontade de enterrar uma governação austera apenas terá justificação perante o país se a essa estratégia - a que corresponde uma visão alternativa da realidade económica e social, respaldada na aritmética parlamentar - estiver ligado um projeto sério, duradouro e sustentável. As juras de amor entre António Costa, Jerónimo de Sousa e Catarina Martins são certamente telegénicas, mas não chegam. É preciso que o casamento dure. A margem de erro, atendendo às circunstâncias em que foi constituída esta maioria de Esquerda, é nula. Os muros da História que António Costa diz ter derrubado são os mesmos que agora se erguem em seu redor.

PS, CDU e BE já se entenderam sobre a ideologia. Agora são obrigados a entender-se sobre a economia. Os acordos firmados exibem algumas fragilidades no nível de compromisso e denotam um óbvio calculismo de bloquistas e comunistas, que ficam com um pé dentro do acordo e dois pés fora do Governo. Até agora, António Costa, cujo sorriso na noite eleitoral (percebemo-lo agora) devia ter sido interpretado com outro alcance, geriu com frieza o tempo e a agenda. Mas se Cavaco Silva o indigitar como primeiro-ministro, a sua missão será bem mais espinhosa: terá de conviver com uma Esquerda que o apoia, mas não lhe passa cheques em branco, com uma Direita que saliva por vingança, e com uma Comissão Europeia e uns credores internacionais pouco dados a estados de espírito.

Este entendimento à Esquerda só será verdadeiramente histórico se, no fim da linha (um orçamento ou uma legislatura, logo veremos), Costa, Catarina e Jerónimo provarem que é possível devolver dinheiro e esperança aos cidadãos mantendo as contas em ordem e honrando os compromissos externos.

Já Passos e Portas não deviam ter aberto tanto a boca de espanto. Na verdade, foram apenas vítimas de si próprios. De uma política arrogante, marcadamente radical, feita de cortes cegos, alimentada por uma fúria privatizadora que meteu a social-democracia na gaveta. A guinada ideológica à Esquerda é a consequência natural da guinada ideológica à Direita dada por PSD e CDS nos últimos quatro anos.

Lamentavelmente, nesta viagem entre extremos está a perder-se pelo caminho a ponderação e o bom senso. Como atestam estes dois dias de barafunda parlamentar. Os moderados passaram à história. A política portuguesa atingiu a dimensão emocional de um Porto-Benfica. Mas, ao contrário do que sucede no futebol, este clássico ideológico não se esgota numa semana. Promete ser longo. Para já, manda o coração. Mas nós precisamos mesmo é da cabeça.

*EDITOR-EXECUTIVO-ADJUNTO

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