Opinião

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Há poucas imagens tão reconfortantes como a do nosso cão quando chegamos a casa. É o corpo inteiro num abano sísmico, a cauda, o lombo, as orelhas. Faça chuva, faça sol, estejamos nós com vontade de morrer de cansaço na soleira da porta, estejamos nós num estado anímico equivalente ao dele. E a satisfação deste retrato é válida mesmo quando descobrimos que o nosso tão adorado e saudoso cão roeu mais dois ou três tapetes ou resolveu coçar as gengivas num par de chinelos. Ou que aprimorou durante a tarde um gosto especial por meias desportivas. Quando eles se desmancham todos à nossa chegada, já sabem que estão, no fundo, a exercer uma forma de chantagem emocional que nos tolhe o impulso e a raiva. Dá-nos vontade de os repreender com firmeza, mas o que queremos mesmo é soltar uma sonora gargalhada ante aquele ar insolentemente animalesco. É assim à segunda-feira, à terça ou ao domingo. Nós vemos neles muitas coisas, mas eles veem sempre o mesmo em nós: a personificação da mais pura felicidade. Sem contrapartidas. E nisso jamais seremos como eles.

* JORNALISTA

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