Opinião

Orçamento do estalo

Como os amuos da pré-época no futebol, também na política há um tempo designado para os amuos pré-orçamentais.

A cada vez maior necessidade de os governos minoritários serem forçados a estabelecer parcerias para aplicarem o poder com serenidade tornará, porém, esta dança desencontrada entre partidos numa consequência natural da democracia. António Costa sabe que o Orçamento do Estado para 2022 vai passar. Tal como Catarina Martins e Jerónimo de Sousa. Isso não invalida, porém, que cada um faça o seu jogo, estique a sua corda, licite as joias anelares. O documento nunca agrada a todos porque, na verdade, nunca nenhum orçamento é consensual, sobretudo junto das vítimas tradicionais da lei mais marcante do país: os contribuintes.

Ainda assim, o presidente da República ensaiou a dramatização protocolar do costume, acenando com o inferno das eleições antecipadas. Irmos para sufrágio popular num contexto de recuperação económica, acabadinhos de sair de uma crise sem precedentes e estando nós de braços estendidos à espera dos milhões da "bazuca" europeia, seria incompreensível e inaceitável, independentemente da justeza e legitimidade das reivindicações dos partidos de Esquerda.

A política vive da confrontação e da negociação. Mas em momentos decisivos como este o calculismo partidário deve ser enterrado no quintal das vaidades. Os líderes têm a obrigação de se sentar à mesa, às cabeçadas se for necessário, engolindo sapos e verbalizando cobras e lagartos uns dos outros, mas mantendo esse propósito no horizonte. Aquilo que o Orçamento do Estado para 2022 propõe aos portugueses está longe de ser o mar de rosas que o PS apregoa. Basta vermos o enorme peso da carga fiscal e a escalada alvitrante do preço dos combustíveis, para a qual o país parece estar agora a acordar, depois de um longo sono profundo. E para o qual o Governo também despertou, anunciando uma devolução ridícula aos automobilistas. Mas o contrário de não termos Orçamento é sermos arrastados para uma crise política altamente lesiva dos nossos interesses coletivos. Por isso, entendam-se lá. Desenhem um plano em que fiquem todos a ganhar. Poupem-nos à coreografia.

*Diretor-adjunto

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