Opinião

Os filhos do nosso tempo

Os filhos do nosso tempo

Não vale a pena batermos com a cabeça na parede em sinal de fraqueza ou penitência. Quem tem filhos e uma vida profissional exigente está demasiadas vezes com as prioridades trocadas. Primeiro o trabalho, depois eles.

Até porque - e desembainhamos sempre este argumento - sem o rendimento que provém do primeiro, é impossível garantir a educação e o conforto dos segundos. A bússola apontará sempre o caminho das pedras: sacrificámo-nos tanto por eles que não percebemos que são eles quem se sacrifica por nós.

A vida de todos os dias não se compraz com visões delicodoces. Quem trabalha para pagar as contas do mês e não possui retaguarda familiar não pode dar-se ao luxo de não "depositar" os filhos nos braços dos outros durante longos períodos do dia. Portugal está, nesse particular, na cauda vergonhosa da Europa: mais de metade das crianças até aos três anos ficam entre 10 a 12 horas por dia nos infantários, creches ou numa ama. É horário de crescido. É como ter um emprego sem ser adulto.

Os dados não são novos. Os vícios também não. E é precisamente por isso que devemos atacá-los com sentido de urgência, por tudo aquilo que está em causa num modelo social em que somos incapazes de estar horas suficientes com as pessoas mais importantes do Mundo. Mas discutir o tempo dos pais e dos filhos implica discutir a forma como as empresas e o Estado se organizam. Implica, na verdade, discutir tudo. Horários, férias e demais mecanismos de compensação, como a oferta de espaços educativos nos empregos para acolher as crianças durante alguns períodos do dia. Acreditem que os pais e as mães seriam bem mais produtivos. De nada nos servem os cheques para multiplicarmos bebés pelo país se, depois, deixamos que eles sejam educados pelos outros no período da vida em que, provavelmente, mais precisam de nós.

Era bom, por isso, que patrões, sindicatos e poder político pudessem tentar (tentar já era um primeiro passo) patrocinar um debate público sobre esta fatalidade a que estamos amarrados. É certo que não vamos mudar o Mundo, mas as vitórias que alcançarmos, por mais ínfimas que nos pareçam, serão em prol dos nossos filhos. E do país que eles vão deixar aos filhos deles.

*Diretor-adjunto

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG