Opinião

Os pobres que esperem

Há muitas formas de medir a pegada das desigualdades sociais: nos salários por região, no acesso aos cuidados de saúde, na aplicação da justiça. Mas, de entre todas, há uma que se sobrepõe, porque influencia tudo o resto: a educação.

Os dados que o JN hoje revela sobre a convergência no Ensino Superior constituem um retrato estatístico desolador. Porque traduzem a herança de um país que se molda a duas velocidades. De um país que continua a gerar oportunidades em função do estrato social e do poder aquisitivo das famílias, num círculo vicioso geracional muito difícil de suster.

Alberto Amaral, coordenador científico do estudo que confere tridimensionalidade a este universo dual, recorre a palavras duras: "As classes mais baixas só podem tirar vantagem das oportunidades oferecidas pela expansão quando as necessidades das classes mais altas estiverem completamente satisfeitas". Ou seja: aos mais pobres não resta outro remédio senão esperar que o "mercado" tenha necessidade de os absorver. Porque os cursos universitários com notas elevadas de acesso, como Medicina, as engenharias e a Economia, por exemplo, continuarão a ser predominantemente ocupados por estudantes de famílias favorecidas, em que os pais, na esmagadora maioria, têm formação superior. Provando, assim, que a universidade não é para todos. E que o elevador social que devia nivelar as expectativas avariou. Quem está em baixo dificilmente vai subir e os que progridem no topo não sairão de lá. Também aqui, as dinâmicas do território se revelam, porque quanto mais nos afastamos do Porto e de Lisboa maiores são as discrepâncias. E mais prementes as necessidades de apoios sociais.

O debate da educação em Portugal está há demasiado tempo refém de uma agenda ideológica e sindical que tem obrigado os governos a reagir ciclicamente por impulso, empreendendo sucessivas revoluções que mudam muita coisa mas não mudam nada de verdadeiramente estruturante. O problema, como se percebe, é bem mais fundo e inquietante. Esta não é a luta de uma classe, mas uma luta de classes.

*DIRETOR-ADJUNTO

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