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Opinião

Os Ronaldos da Ciência

Os Ronaldos da Ciência

Se houvesse um medidor da tolerância que pudesse ser aplicado ao cidadão português médio, íamos provavelmente concluir que os valores, em 2020, tinham andado pelas ruas da amargura. Ou seja, altos para a intolerância, baixíssimos para a tolerância.

Não é difícil imaginar porquê. Os 12 meses que agora findam foram tenebrosos. E até na ansiedade timidamente controlada que exibimos a propósito da aprovação de uma vacina contra a covid-19 se denota essa ausência de... ia dizer fé, mas não é fé, é outra coisa, é confiança. Ainda que resida na ciência a tábua da nossa salvação, damos por nós a franzir o sobrolho sempre que aparecem notícias sobre uma nova variante do coronavírus ou referências a outras ameaças de efeitos não mensuráveis. Desconfiamos da doença e desconfiamos da cura.

É agora que os pessimistas podem parar de ler. Porque não creio haver razões para tanto descrédito. Ou falta de fé. Sendo verdade que o Mundo, mesmo o mais desenvolvido, não tinha um plano de defesa para atacar esta pandemia, e que a Ciência, tão lesta a providenciar soluções em tantos domínios socialmente supérfluos, também foi apanhada desguarnecida, é justo reconhecer que os cientistas, os estados e as multinacionais da indústria farmacêutica e da investigação se uniram como nunca para desenvolver uma imunização num tempo que constituiu um recorde na história da Humanidade.

A Ciência será incapaz de sarar as feridas económicas e sociais que vamos andar a lamber durante anos, mas este terrível 2020 ensinou-nos que, daqui para a frente, quem estiver mais bem preparado em termos científicos está mais bem preparado para tudo. Porque outras pandemias virão, tão ou mais letais e virulentas do que esta. Por isso, aproveitemos o que de bom teve esta jornada de má memória para olharmos com outra atenção para este novo Mundo de oportunidades. Não poderemos competir com as grandes potências científicas, mas também não devemos resignar-nos à fatalidade de sermos (quase e apenas) bons a exportar talentos no futebol. Os cientistas serão os Ronaldos de um futuro que já começou.

*Diretor-adjunto

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