Opinião

De Marcelo a Trump

Naquele jeito pausado mas desconcertante de quem parece suportar nos ombros todo o peso do Mundo, sentenciou: "[Antigamente] as pessoas não precisavam de grandes elucubrações. Eram o que eram. E isso bastava-lhes". Não há muita gente que consiga sintetizar lições tão profundas com tanta simplicidade. As palavras de Eduardo Lourenço, proferidas, há dias, numa entrevista à RTP, encaixam em quase tudo. Mas encarnam na perfeição o espírito do que é hoje (e não devia ser, nalguns casos) o exercício da atividade política.

Num mundo cada vez mais vergado à ditadura mediática dos "likes", não é fácil dignificar o serviço público com seriedade e discrição. A cultura de entretenimento não contagiou apenas os meios de informação, disseminou-se com naturalidade pelas arenas da ação política, onde os atores são-no de facto. Porque há sempre alguém a ver.

Um presidente da República afetuoso, como Marcelo Rebelo de Sousa, é-o por traço de personalidade, mas também por necessidade de se aproximar dos cidadãos, por sentir que a mensagem só é verdadeiramente eficaz se tiver uma adesão à realidade. Marcelo, o professor, é um presidente mundano porque se assume como mais "um entre nós". Com as virtudes e os defeitos característicos de todos. Além do mais, diz o que pensa (com uma frequência quase diária, é certo) e di-lo num português que todos percebemos, o que não é de somenos. Em suma, Marcelo tem provado que a solenidade do cargo não é incompatível com a dimensão popular que também deve assumir o presidente de todos os portugueses. Que a força da mensagem advém, em larga medida, da força da personalidade.

Mas nem sempre é assim. Veja-se o que está a acontecer na campanha presidencial dos Estados Unidos da América, com a súbita mudança no discurso do candidato republicano Donald Trump, o bruto que agora quer ser moderado e cuja campanha está a ser podada na forma, limpa das excrescências e dos exageros. Com a nomeação à distância de um palmo, Trump sentiu necessidade de contratar Paul Manafort, um guru da comunicação que tem no currículo a prestação de serviços a líderes pouco recomendáveis. "O papel que [Trump] está a desempenhar está a evoluir para o papel pelo qual vocês têm esperado", confidenciou o "spin doctor" do republicano.

Está visto que Trump jamais deixará de ser Trump. Está visto que esta pausa contranatura durará apenas o tempo suficiente para assegurar a vitória. Aos populistas não lhes basta ser quem são. Têm, também, de ser aquilo que deles se espera.

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