Opinião

Preconceito e consciência

Preconceito e consciência

O mais recente relatório da Oxfam é lapidar: as desigualdades sociais são um processo irreversível em curso. Um cada vez menor número de ricos continua a suplantar, no poder aquisitivo, um cada vez maior número de pobres.

Resumir, por isso, a justiça social a uma bandeira ideológica agitada por uns académicos chatos, ignorando a necessidade de ver nela uma prioridade do discurso político, já não é só um sinal de desonestidade, mas de profundo autismo. Os modelos de governança global continuam, porém, a abrir caminho a este rolo compressor. Nenhum político gosta de ser inimigo de um milionário. Muito menos de um bilionário. Se não fosse assim, não seria possível que os 22 homens mais abastados do planeta possuíssem uma fortuna que supera a de todas as mulheres de África (desconheço se está contabilizada aqui a riqueza de Isabel dos Santos, a mais afortunada de todas essas mulheres). Se não fosse assim, o número de bilionários não teria duplicado na última década.

É verdade que estes seres humanos com rendimentos estratosféricos criam, nalgumas situações, milhares de postos de trabalho, mas o seu ascendente social construiu-se em larga medida num pressuposto que não se comove perante altruísmos: o de que o dinheiro não tem preconceito nem consciência. Só pensa em multiplicar-se. Missão que se torna mais fácil a partir de uma redoma onde gravitam os ricos que fazem política e os políticos que um dia também querem ficar ricos fora da política.

Foi assim, de resto, nos anos dourados da influência de Isabel dos Santos. Em Portugal e nas latitudes onde deixou pegada financeira. Os que engordaram à conta da sua "perseverança" e de um património pessoal cerzido com os genes do pai não viram inconveniente enquanto a fonte jorrava dólares. O dinheiro não foi preconceituoso. Agora, que uma investigação jornalística põe a nu um manancial de factos sobre alegadas práticas sinuosas de que se suspeitava mas de que não havia provas, esses mesmos criadores de oportunidades fogem dela como o diabo se esgueira da cruz. O dinheiro não tem consciência. Os ricos continuarão a ser ricos porque os pobres continuarão a ser pobres. Em Angola, em Portugal e no resto do Mundo.

Diretor-adjunto

Outras Notícias