Opinião

#ramoseco

Ângelo posou para a objetiva amparado no cajado que não o levou como ele queria. À velocidade a que ele queria. Um olhar perdido, distante, ainda mais do que aquele pedaço de Portugal enclausurado. Foram os mais longos dois quilómetros da sua vida. Fê-los às apalpadelas, limitado pelos 40% de visão. Aos soluços, porque o coração é grande, mas caprichoso. "Com um pau a bater pelo chão, segui pelo alcatrão". Na cabeça a mil, a imagem da mulher. Inanimada. Em casa. Morta. Ângelo vive a 190 quilómetros da capital de um país da moda. No Vale da Ameixoeira, na Sertã, a geografia já não está morna após os incêndios de outubro. Mas a terra ainda mata. E o peito de Ângelo, 79 anos de cinzas, arde agora às mãos desse fogo traiçoeiro. Triste ele. Envergonhados nós. Por não haver um telefone fixo, arrastou o corpo pela madrugada em busca de ajuda. Mas a sua Maria, Maria dos Santos, sucumbiu. Insuficiência cardíaca. Não lhe valeu Ângelo, por mais que quisesse. Uns meses antes, foi Maria a galgar aqueles dois intermináveis quilómetros para salvar o marido, acometido de um enfarte. Em dezembro, ela conseguiu-o. Dois meses depois, ele não foi "capaz". Um telefone fixo emudecido acabou com tudo. A Altice e a Nos apontam, sem pudor, o dedo uma à outra. A Anacom vai investigar. O Governo vai esperar pela investigação. E, entretanto, esse outro país que mais parece outro mundo, continua a definhar. Como um ramo seco que parte, inconsolável, sempre que o vento assobia.

JORNALISTA

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