Opinião

#sorria

Cometi a imprudência de entrar numa loja de pronto-a-vestir no primeiro dia de saldos (ou promoções, ou descontos, ou rebaixas, enfim, aquele período em que é suposto tudo estar mais barato, menos as coisas boas, que são da "nova coleção"). Não me assusto facilmente, mas temi pela vida ante o olhar musculado de uma das funcionárias. "Menina, por favor..." - e ela vazou-me o peito com dois raios lancinantes de raiva. "O senhor desculpe". Claro que desculpei. Claro que temos todos de desculpar. A loja parecia um cenário da "Guerra dos tronos". Em dezembro, é mais perigoso estar atrás de um balcão num shopping do que ser um homem-bala num circo itinerante. Com a desvantagem de que, ao contrário dos segundos, aos primeiros ninguém bate palmas no fim. Miseravelmente pagos, estes trabalhadores são vítimas clássicas do consumismo salivar. Maratonas de horas em pé, fins de semana seguidos, horários bipolares e, acima de tudo (ou abaixo de tudo), a inevitabilidade de terem de enfrentar uma multidão em fúria que quer derreter as poupanças em roupa. Por isso, este Natal, se não puder fazer mais nada, ao menos sorria. Porque eles têm uma fibra e um brio à prova de cartão de crédito. E uma paciência XXL.

*JORNALISTA

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG