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Opinião

Superpais, não "supernanny"

Superpais, não "supernanny"

Televisão de qualidade duvidosa será sempre televisão de qualidade duvidosa. Quer se trate de um reality show em que a obesidade mórbida é explorada como medida de superação pessoal, quer se trate de um folhetim com emissão ininterrupta em que a testosterona dos intervenientes é controlada com açaime numa casa com paredes forradas a câmaras de filmar. Mas o que distingue má televisão de televisão de mau gosto é justamente o perfil dos que se sujeitam à devassa. Um adulto com espírito frágil pode não encontrar motivos para se sentir importunado com a humilhação pública. Pode, até, vislumbrar nesse palco iluminado alguma compensação emocional. Mas um adulto não é uma criança. Não nas obrigações. E muito menos nos direitos.

"Supernanny", o programa da SIC que, de uma forma tão crua quão encenada, quer ensinar os pais a domesticar os filhos mal-comportados, com a ajuda de uma ama-psicóloga-educadora, tal e qual vemos Cesar Millan fazer com os animais de quatro patas em "O encantador de cães", ultrapassa - e eu quero crer que eles ainda existem - os limites da decência. Pela insidiosa intromissão na intimidade dos menores, pela violação dos seus direitos mais básicos e pelo perigoso manuseamento das situações de conflito entre pais e filhos no contexto doméstico. Em suma, está tudo errado.

No primeiro episódio, em que uma menina de sete anos é apelidada de "furacão Margarida", vemos a filha a bater na mãe. A mãe a bater na filha. A avó e a mãe a criticar abertamente a criança. A avó a condenar os comportamentos da mãe. E, finalmente, a mãe a denunciar a avó por contrariar as instruções que ela dá à filha. E isto não é o pior que vemos.

Diz-nos a experiência que o impacto entretanto alcançado fará com que, no próximo domingo, sejam dois milhões e não um milhão de portugueses a assistir ao segundo episódio da saga. E, ainda que a reprovação tenha sido geral, desde a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (forçada a intervir), passando pela Unicef, pelo Instituto de Apoio à Criança e pela Ordem dos Psicólogos, é provável que os oito episódios sejam emitidos sem grande mácula. Basta ver o que aconteceu com o mesmo programa noutros países europeus.

Mais do que o atrevimento de quem quis transformar em telenovelas dramas familiares que abrem feridas profundas, o que me parece extremamente condenável é o comportamento dos pais que sujeitam os filhos a esta exposição cruel. Numa imagem perversa, é como se instalássemos um laboratório na jaula de um jardim zoológico. A educação de uma criança não é um programa de televisão. Por mais desesperados que possam estar os educadores. Por mais benigno que seja o seu propósito. Estes meninos não precisam de uma "supernanny". Precisam de uns superpais. Que os protejam, acarinhem e eduquem.

Quem não perceber isto talvez deva ponderar pedir ajuda para si próprio. O problema não está nas crianças.

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* SUBDIRETOR

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