O Jogo ao Vivo

Opinião

#tédiosexual

Acho muito bem que as mulheres falem abertamente sobre o assédio sexual. Acho estupendo que a denúncia pública possa servir para suster (já que é impossível de corrigir) a boçalidade e marialvice de alguns homens. Mas já não me parece normal que, de repente, haja um pequeno exército de figuras públicas a embarcar num choradinho autobiográfico forrado a generalizações. Mais: que esgravatem nos baús de memórias em busca de episódios de que nunca tinham falado mas que, descobrimos agora, as marcaram para a vida. Apenas para não ficarem de fora no desfile da compaixão. Pior: que lancem suspeições sobre os "superiores hierárquicos" sem os mencionar. Que não sejam definitivas na exposição do cobarde. Quem foi, onde foi, em que contexto foi. A não ser assim, acabaremos por transformar um debate apaixonante e essencial numa passarela de vulgaridades. Depois, esta banalização não só é injusta para com as vítimas sem palco, como projeta uma imagem completamente distorcida dos homens. Embora seja notório em muitos de nós, não é verdade que a globalidade dos representantes do género tenha ficado, em matéria evolutiva, na fase Homo sapiens. Nem aqueles cujos olhos são cerces ao nariz. Abrir feridas tão íntimas não implica apenas ter coragem. Implica, também e sobretudo, ter noção do peso das palavras. Ao vulgarizarmos o abuso, estamos a vulgarizar os abusadores.

* JORNALISTA

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