Opinião

Um país atestado

Um amigo regressado de Luanda confidenciava-me, há dias, com algum desdém: "Vocês sabem lá o que é faltar combustível para viver, não ter gasóleo para circular, para ligar o frigorífico que se alimenta através de um gerador ou para garantir o dia a dia de uma simples fábrica".

Nós não sabemos, de facto. E ainda bem. Mas o alarme bíblico gerado pela greve dos motoristas que hoje começa por tempo indeterminado fez-nos despertar para a essência do país que, quatro décadas e meia volvidas sobre a ditadura, ainda somos: medroso, alarmista, inseguro. Um país que se constrói e corrói com fantasmas, que medra numa redoma de orfandade, carente de um Estado firme e paternal. O Mundo não acaba a partir de hoje, mas ai de quem nos diga o contrário. No final, acabamos convencidos de que somos mais inteligentes do que todos os outros. Porque no Portugal dos pequeninos, na selva dos pequeninos, não há predadores tão dramaticamente inofensivos como nós.

Na sexta-feira, parecíamos a Venezuela. Corrida desenfreada às bombas, açambarcamento, escaramuças, manuais de sobrevivência. Durante o fim de semana, evoluímos para a pacatez e civilidade da Dinamarca. Solidão entre os gasolineiros. Em abril, o Governo dormiu na forma. Foi o que se viu. Agora, o mesmo Governo injetou litradas de cafeína na verve política pré-eleitoral e deu uma aula prática sobre governança em tempos de crise, atingindo no coração os fundamentos da greve (noutros tempos, a Esquerda treparia paredes) e exaltando o papel determinante e incontestável de um Estado de direito musculado (até o CDS bateu palmas, de uma forma um pouco sonsa).

Esperemos que a normalidade seja reposta e que o conflito salarial entre motoristas e patrões não degenere noutras formas de confrontação. Ainda é cedo para balanços, mas julgo que já podemos concluir, mesmo antes de a greve se fazer à estrada, que trememos por pouco, mas segurámo-nos como poucos. E que as matérias só são perigosas à medida dos nossos dramas.

* DIRETOR-ADJUNTO