Opinião

Uma vacina contra a vacina

Uma vacina contra a vacina

A vacina contra a covid-19 ainda não chegou, mas já ecoa nos ouvidos de todos com a candura de um violino celestial.

É normal que assim seja, porque ela é, objetivamente, a única forma que este Governo, e todos os governos, tem para responder a uma pandemia desgraçada que continua a esmagar-nos. Já usámos todas as metáforas possíveis para descrever os seus efeitos salvíficos: "a luz ao fundo do túnel", a "arma que vai ganhar a guerra", o "maior inimigo do vírus". A vacina é tudo aquilo que queremos que ela seja, mas com o tempo vamos percebendo que ela não pode ser mais do que aquilo que é: uma solução potencialmente eficaz, mas complexa, porque de aplicação lenta e com resultados demorados. Em certa medida, incorpora um novo pedido de esforço coletivo e apelo à resistência.

Foi isso, de resto, que disse ao país o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, num difícil equilíbrio entre o que pode vir a ser um Natal menos restritivo e um arranque do ano com uma terceira vaga. Chegamos a um ponto em que agitar o fantasma do medo é tão pernicioso como deixarmos esvoaçar as pombas da esperança. A única certeza que temos é que os confinamentos são eficientes. Por isso é vital jogar na antecipação, como estão a fazer agora Governo e Presidência, estendendo o horizonte temporal do estado de emergência até 7 de janeiro. O que permite não apenas preparar os portugueses para um período que tradicionalmente é de festa e reunião, mas tem sobretudo a utilidade de reforçar uma mensagem que se renova automaticamente: isto ainda está longe do fim.

E no que à vacina diz respeito não é menos verdade: da dificuldade no fabrico em quantidades astronómicas, passando pela conservação e transporte, acabando na forma como chega à comunidade. A urgência não suplanta a realidade. É bom que nos preparemos para esperar por algo que não pode esperar.

*Diretor-adjunto

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