Opinião

Vacinas em bar aberto

Há gente que consegue sempre encontrar elasticidade na desfaçatez com que cospe na cara dos outros. Gente esquiva, videirinha. Pelintra. Gente para quem chegar à frente dos primeiros é uma prova de suprema inteligência e desembaraço.

Alguma dessa gente colocou-se agora a jeito para ser vacinada antes dos grupos prioritários. Porquê? Porque pode. O que está a acontecer com o plano nacional de vacinação contra a covid-19 é uma indecência. Mas é uma indecência vertical porque, na verdade, os exemplos que vêm de cima são tão ou mais questionáveis quanto os expedientes de que se servem algumas personagens secundárias por esse país fora, numa demonstração de que o sentido do ridículo, e sobretudo de humanidade, em vez de se ter apurado com a pandemia, degradou-se de forma irremediável. Ficamos envergonhados, mas não surpreendidos, ou não fosse o chico-espertismo um traço do genoma lusitano.

O rol de privilegiados que, sem qualquer critério defensável, tomaram a vacina sem a ela terem direito, antes mesmo de muitos idosos de lares e de médicos e enfermeiros do privado, é uma nódoa a somar a tantas outras no estendal enegrecido deste combate. Autarcas, dirigentes de lares e da Segurança Social, assessores do INEM, enfim, há para todos os argumentos e desculpas.

Depois, como se explica que, num ápice, as três figuras de proa da República consideradas consensualmente prioritárias (presidente da República, presidente da Assembleia da República e primeiro-ministro) tenham evoluído para um milhar, numa lista acrítica que envolve deputados, funcionários da Assembleia e outros "indispensáveis" da pátria? Obviamente que as mais altas figuras do Estado deviam ter figurado no grupo inicial de vacinação, entre as quais os ministros de áreas-chave. Mas isso qualquer português de bom senso entende. Outra coisa, bem distinta, é passar do oito para o oitenta com uma arbitrariedade estonteante. Sobre isto, ficamos também sem perceber o que vai fazer Marcelo Rebelo de Sousa. Porque só ele é capaz de travar esta bizarria que confunde e intoxica o que deveria ser um procedimento à prova de bala e de favorecimentos. Aperte-se a fiscalização, mas promova-se a transparência. Os portugueses têm o direito de saber para onde e para quem está a ser canalizada a cura. Num contexto de urgência e de carência como o que vivemos, não podemos caucionar um regime de vacinas em bar aberto.

Diretor-adjunto

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG