Opinião

#velhoecaro

Paulo (vamos chamar-lhe assim) ficou desempregado pouco antes de completar 40 anos, após duas décadas de entrega numa empresa que tinha tudo para dar certo. Menos os avarentos que a geriam. Continuou a apresentar-se no local de trabalho durante meses, para não abdicar dos direitos que sabia que tinha, mas que ninguém lhe mostrava. Pelo caminho, a mulher, da mesma idade, juntou-se a ele na fileira dos que deixaram de ver sentido nas coisas mundanas. Agarrou-se às boias de salvação lançadas pelos pais e pelos sogros. Porque o subsídio de desemprego caducou, como um iogurte estragado. Desde então, há uma resposta que o massacra, como um tinir agudo: "É muito velho e muito caro". Mas Paulo nasceu depois do 25 de Abril e nem mil euros ganhava quando lhe bateram com a porta no nariz. Já perdeu a conta aos currículos que imprimiu. Uns com muita informação ("foi assim que me disseram para fazer"), outros apenas com o essencial ("foi assim que me disseram para fazer"). Colecionou entrevistas, respondeu a cartas, alimentou expectativas. Foi sempre ultrapassado. Ou por alguém que conhecia alguém mais importante. Ou pela certeza de que ia trabalhar para aquecer. No fim, e já lá vai mais de um ano, permanece agrilhoado por essa frase que o amesquinha e revolta. É muito velho e muito caro. "Querem pagar-me uma miséria. Porque sabem que já estou numa fase em que me sujeito a tudo". E tudo, lê-se no fulgente desespero dos seus olhos, pode incluir a própria dignidade.

*Jornalista

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