Opinião

Você decide: menos défice ou mais fome

Você decide: menos défice ou mais fome

Pedro Passos Coelho, padrasto da austeridade compulsiva, timoneiro do rigor orçamental acima de tudo, decidiu dar uma benesse aos portugueses, mensurável em 0,2% de pura indisciplina orçamental. Bruxelas pediu obsessão com as metas do défice (2,5%), mas o aluno exemplar deixou o ramalhete descompor-se um nadinha (para 2,7%). Sim, porque Passos ("que se lixem as eleições", lembram-se?) acredita firmemente que os tempos (já) não são de "fanatismo orçamental". Que a frase que outrora tatuou no peito ("Amor de Merkel") não passou de um impulso juvenil. Que se lixem as eleições? Mesmo?

O Orçamento do Estado de 2015 não é (está bem longe disso) um ponto de viragem na estratégia de desenvolvimento da economia portuguesa, mas representa uma significativa melhoria na vida de muitos portugueses, em particular dos pensionistas e dos funcionários públicos, eles que foram sendo sovados ano após ano. Sendo um orçamento político, não deixa de ser um orçamento pragmático. Desta vez, sem o fantasma do Tribunal Constitucional à vista.

Gostava sinceramente de acreditar que a variação nas metas do défice correspondia a uma nova forma de pensar o país. Que Portugal, de algum modo, estaria a aproveitar a boleia dada por estados como França e Itália (segunda e terceira economias da Zona Euro) no sentido de desafiar a tirania da austeridade a todo o custo, que atirou a Europa para um fosso lúgubre.

Durante muito tempo (tempo de mais?), fomos confrontados com a inevitabilidade de cortarmos em tudo e em todos. Não havia outro remédio. Receita: fazer reformas estruturais e baixar o défice à bruta. Resultado: o modelo, no caso português, deu no que deu: não só não concretizamos as reformas que se impunham, como fizemos disparar o desemprego e as falências e empurrámos dezenas de milhares de portugueses borda fora. Vulgarizámos a classe média. E entrámos para a estatística negra da fome na Europa. Um terço das crianças portuguesas viveu, em 2013, em privação material (o que implica não ter acesso a uma refeição de peixe ou de carne a cada dois dias) e 15% enfrentaram a dureza de uma pobreza consistente. Do que falamos, portanto, é de uma geração inteira que já nasceu algemada.

As eleições legislativas do próximo ano deviam ser o gatilho desta discussão que se agiganta na Europa: podemos ser rigorosos e ambicionar crescimento? Podemos tentar, pelo menos tentar, uma outra via para sair da crise, que acautele o modelo social, que não implique mais despedimentos, mais cortes salariais e nas pensões, que pense, em primeiro lugar, nas pessoas e só depois nos gráficos e nos ratings? Podemos, de uma vez por todas, explicar à senhora Merkel que entre ter mais défice orçamental ou menos fome entre as crianças, nós escolheremos sempre a segunda? E não é isso óbvio?

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