Brasão abençoado

De boas intenções

A SIC acabou com os programas em que os participantes declaram explicitamente as suas simpatias clubísticas e parece que a TVI também o vai fazer. Apesar de pensar que há outras razões bem mais prosaicas e respeitáveis, acredito que as direções dos canais queiram mesmo contribuir para a melhoria do ambiente do nosso futebol. Seja como for, o modelo estava esgotado.

Como o futebol é demasiadamente importante em Portugal para que os canais não lhe dediquem muito tempo surgirão outros programas. Temo que os responsáveis das televisões descubram da pior forma que é infinitamente mais difícil ter um comentador de futebol independente do que um de política, por exemplo. Mais, a possibilidade de ter espectadores zangados com os canais por este ou aquele comentador ser apresentado como equidistante dos clubes será muito grande.

Mal ou bem, no modelo do adepto, há uma representação clara e o espectador sabe ao que cada um vem. No do comentador independente vai existir o que no futebol português abunda: a suspeita.

Dir-me-ão que isso já existe nos atuais comentadores de futebol (alguns não são tóxicos, são radioativos e os canais não parecem estar preocupados). É verdade, simplesmente toda a carga emotiva que o futebol sempre traz vai agora ser concentrada neles e nenhum adepto acreditará que são mesmo independentes, sejam ou não.

Como em qualquer outro fenómeno social, os agentes do futebol criam narrativas: "somos muitos", "os outros são beneficiados", "o jogador x é violento". Uma coisa é ser um adepto a repeti-las, outra é ter alguém vendido como independente a criá-las sem qualquer escrutínio.

O problema é que a fixação de uma narrativa condiciona e ajuda a ganhar campeonatos.

O treinador que mais subidas de divisão regista no futebol português vai abandonar o banco. Vítor Oliveira optou quase sempre por equipas que jogavam para ganhar, mas nunca conseguiu ter uma hipótese de se candidatar aos grandes prémios. Teve uma grande carreira, merece todos os elogios.

Acaba o campeonato e começa a fantochada dos programas sobre possíveis transferências. Todos os dias se pode assistir a um rosário de aldrabices e de favores feitos a empresários amigos. Aquilo pode não ser tóxico, mas é seguramente uma pouca-vergonha.

*Adepto do F. C. Porto

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