Bancada JN

O Sebastião merece

O meu rapaz mais novo tinha pouco mais de um mês e achava muita piada trocar-me os sonos.

A minha forma não era das melhores, mas o brasão abençoado vinha jogar a segunda mão da Supertaça à Luz e, tal como hoje, não há nada que me deixe mais entusiasmado do que ver as minhas cores. Na altura, ia quase sempre sozinho ao futebol. Não conhecia portistas que quisessem ir comigo todos os 15 dias às Antas e os meus dois habituais camaradas de jogos do F. C. Porto em Lisboa não eram muito constantes. Meti-me no carro, estacionei à beira do Califa e lá fui para a sede do Califado.

Convém explicar que quando digo que ia sozinho ao futebol quero, obviamente, dizer de casa até ao estádio. Nós portistas nunca estamos sós. Mesmo nos campos mais recônditos, nas circunstâncias mais adversas, nas tempestades mais furiosas (sim, rapazes, eu sou do tempo de apanhar cargas de água tais que até os ossos ficavam húmidos), há sempre um de nós. E não é preciso ter cachecol, nem abrir a boca, para sabermos pelo olhar que temos ali um irmão. Entrei no terceiro anel, olhei em volta e juntei-me a uma pequena ilha de portistas no meio daqueles benfiquistas todos. Tínhamos ganhado por 1-0 nas Antas e a bazófia que ia pelas bandas vermelhas era a do costume. Marcamos o primeiro logo no princípio e respiramos melhor, o Edmilson marca o segundo quase no fim da primeira parte e fizemos a festa no meio deles. Com o terceiro golo, logo no início da segunda parte, já era tudo nosso. Já não havia benfiquistas em volta, tinham metido o rabito entre as pernas e ala.

Ainda marcamos mais dois: 5-0 na Luz, ali nas barbas deles. A última memória que tenho desse dia é a de o dono de uma roulotte, onde eu e mais cinco portistas que nunca mais vi ficamos depois do jogo, nos anunciar que não havia mais Super Bocks.

Rapazes, amanhã não peço cinco, basta-me ganhar, mas que o meu rapaz, 24 anos depois, merecia ver o que o pai viu merecia.

Adepto do F. C. Porto

Outras Notícias