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Rafael Barbosa

90 minutos, com sorte…

Cavani, avançado uruguaio que atirou Portugal para fora do Mundial, escreveu uma carta a Edinson. O primeiro tem 31 anos, o segundo tem nove. Mas são a mesma pessoa. Vale a pena ler o texto na íntegra (na publicação online "The Players Tribune"). E uma passagem em particular. Diz a estrela de futebol, agora habituado a uma vida de luxo em Paris, ao menino pobre de Montevideu que foi, e a quem faltava quase tudo (que não a bola e o sonho): "Quando és uma criança, tens a sensação de que a pessoa mais bem-sucedida é aquela que tem mais coisas. Quando cresces, percebes que a pessoa mais bem-sucedida é aquela que tem a sabedoria de viver a vida. Quando conseguires ser bem-sucedido no futebol, terás tudo aquilo com que podes sonhar. E terás de ser extremamente grato por isso. Mas tenho que ser honesto contigo. Existe apenas um lugar onde podes ter liberdade total. Dura 90 minutos, se tiveres sorte!". O tempo de um jogo. O melhor do futebol. Por oposição ao que tem de pior, que é quase tudo o resto. No futebol português, os últimos meses (como os que estão para vir), são exemplares. Da vulgaridade, da falta de princípios, da violência, da demência. E do crime fiscal, como se lê no mais recente relatório de combate à fraude e evasão fiscal. São pelo menos 90 processos instaurados pela Autoridade Tributária e Aduaneira relacionados com a contratação e transferência de jogadores. Não vale a pena ter ilusões. Mesmo um grande futebolista pode ser um mau cidadão. Veja-se Ronaldo, exemplar dentro do campo, condenado a pena de prisão fora dele. Voltemos à carta que Cavani escreveu a Edinson: "Em muitos aspetos, vives um sonho. Em muito outros, és prisioneiro desse sonho. Não podes sair e sentir o sol. Não podes tirar as chuteiras e jogar na terra. Acontecerão coisas que vão complicar a tua vida. É inevitável". Sobram os 90 minutos. Com sorte...

Rafael Barbosa

Civilização e barbárie

Parece que Trump vai recuar. Parece que vai acabar a separação forçada de pais e filhos. Talvez tenha sido por causa da divulgação do áudio do menino que chorava pelo pai. Talvez tenha sido por causa das críticas de Melania, que também é mãe. Talvez tenha sido por pressão de alguns dos barões republicanos ameaçados pela derrota eleitoral. Ainda assim, e mesmo que se confirme o fim de uma medida desumana, não é caso para cantar vitória. A civilização não está a ganhar à barbárie. Nem nos EUA, nem na Europa. Há um discurso que deixou as ruas para se instalar nos gabinetes do poder. Há uma mensagem de ódio antes gritada por uns quantos extremistas que passou a ser assumida, com o indispensável polimento das chancelarias, por diferentes formações políticas alegadamente democráticas. Há um mal que se vai instalando, que começa por admitir algumas exceções aos direitos humanos, para mais tarde transformar a exceção em regra. Veja-se o caso italiano. Enquanto o navio Aquarius e mais de 600 africanos eram empurrados em direção a Espanha, não deixaram de chegar migrantes aos portos italianos. Essa maré não terá fim. Mas o exemplo é que conta e foi o suficiente para o ministro do Interior, Salvini, cantar vitória e lançar as raízes de uma nova política de desumanidade: já não há a obrigação de garantir o socorro a náufragos no mar. Nos últimos seis anos, desde Lampedusa - lembram-se das fotografias com dezenas de caixões alinhados? ¬-, já terão morrido cerca de 16 mil pessoas no Mediterrâneo. Fomos derramando ocasionalmente umas lágrimas. Mas a presidente da Câmara da pequena ilha italiana, Giusi Nicolini, que recebeu o Papa, que visitou Obama, já não é autarca. Os eleitores preferiram um político defensor da lei e da ordem a uma campeã dos direitos humanos. Trump pode recuar. Mas a civilização não está a ganhar à barbárie. Ainda não.

Rafael Barbosa

Futebol ou sexo?

Bem sei que o escândalo mais recente remete para o Benfica e para as suspeitas de fraude fiscal que a PJ investiga, material propício a conclusões fulgurantes sobre o apodrecimento do mundo do futebol. Bem sei que Bruno de Carvalho continua à frente do Sporting e portanto a municiar análises acutilantes em que se cruzam casos de polícia com os efeitos do "burnout". Sei tudo isso, mas também que são temas demasiado sérios para tratar em tão poucos carateres de uma página de jornal. São temas que, pela sua complexidade, exigem dissecação em programas de debate sem limite de tempo. São temas, finalmente, que exigem espaço televisivo, onde o fulgor e a acutilância são sempre mais vistosos.

Rafael Barbosa

As rendas...

1. Já sabíamos que o preço da energia em Portugal é um dos mais altos da Europa. Também já sabíamos que mais de metade da fatura mensal corresponde a taxas e impostos. Não é novo, igualmente, que parte da conta se deve às "rendas excessivas" que o Estado atribuiu às empresas de energia (entre as quais se destaca a EDP), ou às tarifas garantidas que essas empresas negociaram no caso da produção de energia através de fontes renováveis (na prática, recebem um preço superior ao do mercado). Já sabíamos, portanto, que, a exemplo do que sucede na banca, também na energia se aplica, aqui neste jardim à beira mar plantado, a criativa fórmula da privatização dos lucros e da socialização dos prejuízos. Um tipo de capitalismo bastante estimulante. Todos estes factos são há muito do conhecimento do público em geral, pelo que se presume que também de ministros, deputados e dirigentes partidários. No entanto, ano após ano, entre alguns arrufos políticos inconsequentes, continuamos a receber e a pagar faturas, rendas e mordomias absurdas. Talvez o mais recente escândalo - o salário de 15 mil euros que o ex--ministro socialista Manuel Pinho recebia por conta dos serviços prestado ao Grupo Espírito Santo - contribua para um pacto de regime entre o PS e o PSD. Ou talvez não. O mais certo é que vingue a criativa fórmula de mudar alguma coisa, para que tudo fique na mesma. Um tipo de democracia bastante estimulante.

Rafael Barbosa

Os indignados

1 Foi há uma semana que caiu o Carmo e a Trindade. E qual terá sido a razão para tanto terror e assombro que, segundo o Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, estão associados à expressão? O facto de termos assistido na SIC à melhor síntese jornalística e televisiva que alguma vez se fez sobre a Operação Marquês? Ter ficado claro que Ricardo Salgado era a cabeça de um polvo que corrompeu as nossas elites? Terá sido por percebermos que Zeinal Bava e Henrique Granadeiro agiram na PT em nome de interesses obscuros, com proveitos de milhões? Ou porque José Sócrates, ex-primeiro-ministro e líder do PS, beneficiou de milhões de euros transferidos à socapa, de offshore em offshore, até lhe chegarem às mãos na forma de uns envelopes com notas? Ou, finalmente, porque percebemos que estamos todos a pagar estes desvarios, seja com os nossos impostos, seja com a falência dos serviços do Estado? Nada disso. O terror e o assombro têm outra explicação. O que choca tanta gente inteligente que opina nos jornais e nas televisões, o que horroriza tanta gente sensata nas redes sociais, é a exibição dos vídeos dos interrogatórios a José Sócrates. Estão no seu direito. Mas fico à espera que chegue o dia em que passem da indignação pela violação do direito à imagem da quadrilha, para a indignação pelos crimes cometidos pela quadrilha. E escusam de argumentar com presunções de inocência e trânsitos em julgado. Isso é para os juízes. O julgamento político e social corre mais depressa. Caso contrário, Sócrates ainda podia ser primeiro-ministro e Salgado presidente do BES. Mas, se calhar, a alguns isso talvez não causasse nem terror, nem assombro.

Rafael Barbosa

Ser ou não ser Centeno

Não foi ontem que as condições de atendimento na pediatria do Hospital do S. João (incluindo a oncologia) se tornaram "indignas" e "miseráveis". Não foi ontem que começou a degradação do Serviço Nacional de Saúde. Não foi ontem que se percebeu que há escolas a cair aos pedaços, e outras luxuosamente reformuladas mas sem dinheiro para pagar o ar condicionado. Não foi ontem que se confirmou que as linhas de caminho de ferro estão caducas, razão pela qual os descarrilamentos se vão repetindo. Não foi ontem que professores, trabalhadores da recolha do lixo, enfermeiros, funcionários administrativos ou polícias se afirmaram desmotivados.