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Rafael Barbosa

Os estilhaços da crise

1. Depois de duas semanas alucinantes, a crise no Governo parece terminada. Para o bem e para o mal, António Costa tem mandato para governar. E tem uma maioria absoluta. O que não quer dizer controlo absoluto. Se há facto que se destaca nesta crise é o da nova centralidade política de Marcelo Rebelo de Sousa. O presidente não é apenas um personagem popular. É alguém cuja palavra permite manter ou derrubar ministros e secretários de Estado. E que deixou um aviso político sério: se o Governo não for capaz de gastar, este ano, os 15 mil milhões de fundos europeus disponíveis, não terá futuro. A bomba atómica (dissolução do Parlamento e eleições antecipadas) está à mão.

Rafael Barbosa

Depois da tempestade vem a bonança

Não é segredo para ninguém, menos ainda para os decisores políticos. Nas nossas cidades, em vez de ordenamento, temos desordenamento do território. A impermeabilização dos solos é a regra, seja pelo cimento das construções, pelo alcatrão das ruas ou pelo encanamento das linhas de águas que, mais cedo do que tarde, saem dos eixos, destruindo tudo. A ocupação dos leitos de cheia é a regra e não a exceção, porque foi assim que fomos ocupando o território e porque não há melhor promoção para um novo investimento imobiliário do que anunciar a vista rio ou a vista mar. E nada disto vai mudar, porque custaria muitos milhões realojar famílias e negócios. E, finalmente, temos as alterações climáticas, como fica de novo provado por esta alternância esquizofrénica em que, de uma estação para a outra, passamos da seca extrema para o dilúvio.

Rafael Barbosa

Agora sim, uma geringonça?

É um estranho Governo, este. Não tem ainda nove meses de gestação e somam-se os problemas, incluindo várias idas à urgência. Uma situação surpreendente, se se valorizar o facto de estar suportado na maioria absoluta de um só partido, o que, teoricamente, lhe deveria garantir maior consistência. Os ministros e secretários de Estado só teriam de dialogar uns com os outros, sem necessidade de articulação com outros partidos e menor risco de gerar cacofonia. Mas sucede exatamente o contrário.

Rafael Barbosa

Um ativo tóxico

O antigo presidente da Câmara Municipal de Caminha decidiu fazer um negócio com dinheiros públicos cujo racional não se alcança: pagou 300 mil euros adiantados em rendas a um promotor que se propôs construir um centro de exposições transfronteiriço, num investimento que totalizaria oito milhões de euros. Acresce que o promotor não tinha sequer o currículo que dizia ter. Ou seja, nunca fez nada de semelhante ao que se propõe fazer em Caminha. E assim, sem surpresa, dois anos depois do pagamento com dinheiros públicos, não há sinal de obra.

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Os caudilhos americanos

1. O Brasil libertou-se, até ver, de um caudilho. Na presidência de um dos mais importantes países do Mundo deixará de estar um misógino, um racista, um homofóbico, um corrupto. Um extremista de Direita (muito aplaudido pelos que temos por cá) que despreza os direitos humanos e a democracia. Com o trabalho dos seus apóstolos nas redes sociais somado ao dos pastores evangélicos nos templos, converteu quase metade da população ao seu sonho distópico. A sua derrota justifica festejos, mas sem euforia. Desde logo, porque o novo presidente também carrega sobre os ombros a suspeita da corrupção. Lula só em parte foi absolvido, a maioria dos processos ou foram suspensos ou prescreveram. Foi o suficiente para travar Bolsonaro, mas, para além da fragilidade pessoal (milhões de brasileiros mais não fizeram do que escolher o que consideram ser o mal menor), a base de apoio político-partidária de Lula é pouco sólida. A luta pela recuperação de uma democracia funcional está no início. E os seus inimigos continuam à espreita. No Sul e no Norte do continente.

Rafael Barbosa

Estão a matar meninas iranianas

1. Sarina, Nika e Asra tinham em comum a idade: 16 anos. E o facto de participarem nos protestos que varrem o Irão desde a morte de Mahsa Amini (por causa de um hijabe mal colocado e demasiado cabelo à vista). E todas pagaram com a vida a ousadia de sonhar com alguma liberdade. Sarina gostava de publicar vídeos em que aparecia a cantar, a dançar, a cozinhar, a maquilhar-se, a falar de amor. Saiu de casa para protestar e foi morta. Nika também saiu para desafiar os aiatolas. Circula pelas redes o vídeo em que queimou o seu hijabe em público. Pagou com a vida. Asra estava na escola quando esta foi invadida pelos carniceiros do regime. Tentaram forçá-la a entoar uma canção de louvor ao líder supremo, Ali Khamenei. Recusou, foi espancada, morreu.

Rafael Barbosa

O "centrão" ganha sempre

1. Para quem ache que o quadro partidário em Portugal é fragmentado (oito partidos), compare-se com o Brasil: há 23 partidos representados na Câmara dos Deputados. Uma navegação impossível, mesmo para o mais informado dos cidadãos. Se tivermos em conta os partidos mais à Esquerda e próximos de Lula (incluindo o PT), somam agora pouco mais de 100 deputados (de um total de 513). O bloco de Direita mais próximo de Bolsonaro tem cerca de 200. Quer isto dizer que Bolsonaro terá mais facilidade do que Lula na hora de negociar acordos no Congresso que permitam governar? Não, porque quem manda é o "centrão".

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Não é fascismo mas é perigoso

Calma, o fascismo não está de regresso a Itália. Giorgia Meloni não é Benito Mussolini; os Irmãos de Itália não são os camisas-negras que marcharam sobre Roma; o ecossistema político, social e económico dos anos 20 do século XXI tem muito pouco que ver com os anos 20 do século XX e, finalmente, a Itália tem uma Constituição marcadamente antifascista (desde 1948) que os "irmãos" populistas de extrema-direita não conseguirão alterar, nem mesmo com a ajuda dos "primos" Salvini e Berlusconi.

Rafael Barbosa

O que vem aí é... pior

"O que vem aí é mau", disse, há dias, o presidente da República. Um alerta oportuno, quando a inflação empobrece tanta gente e no horizonte se desenha uma recessão, com a consequente destruição de emprego e de vidas. Mas, na verdade, o alerta de Marcelo Rebelo de Sousa peca por defeito. Esquece que o que temos já é mau. E que, portanto, o que vem aí é pior. Usar o grau comparativo de superioridade só parecerá excessivo a quem não tenha reparado que foi publicado, há poucos dias, o último relatório do Eurostat sobre o risco de pobreza e exclusão social.

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Pôr o capitalismo entre parêntesis

1. É quase inútil a discussão sobre se o Governo foi generoso ou ardiloso nas medidas de combate à inflação. Se podia ter ido mais longe ou se ficou demasiado distante. Se seria melhor baixar impostos em vez de atribuir subsídios. Na verdade, é possível encontrar argumentos válidos entre os que apoiam e os que rejeitam as opções de António Costa. Mas vale a pena alertar para o excessivo tribalismo partidário com que socialistas, por um lado, e as várias oposições, por outro, conduzem a discussão pública. A maioria dos portugueses vive dias de aperto, seguramente apreciariam mais pragmatismo e menos dogmatismo.

Rafael Barbosa

Falcões e pombas

1. Mário Centeno, antigo ministro socialista das Finanças, agora governador do Banco de Portugal (com assento no Banco Central Europeu), deixou o aviso, perante as notícias de que o Estado poderá abrir mão de umas centenas de milhões de euros de receitas, dessa forma aliviando o garrote das famílias com as faturas da luz e do gás, da bomba de gasolina ou do supermercado: é preciso "paciência com a inflação", diz Centeno, assegurando que, no médio prazo, descerá para 2% (em agosto chegou aos 9%). Problema: as contas são para pagar agora, não no médio prazo. O Ronaldo das Finanças (dizem os alemães) também quer prudência nas medidas de apoio, rejeitando exuberâncias quando a economia cresce, o desemprego está em mínimos e os salários sobem 4%. Argumenta com dados macroeconómicos, que são verdadeiros. O problema é que as pessoas vivem na microeconomia. Por exemplo, os quase três milhões de trabalhadores por conta de outrem cujo salário é inferior a mil euros e que foi engolido pelo custo de vida. Centeno transformou-se num "falcão" da economia. Se é que alguma vez foi uma "pomba".

Rafael Barbosa

Até ao verão seguinte

O argumento de que os fogos são uma catástrofe natural que podemos combater, mas não evitar; que são o resultado do aquecimento global e que, por isso, nos afligem a nós como a todos os outros; que este ano está a ser um dos mais quentes e secos desde que há registos e, portanto, nada a fazer; que só através da ação concertada do Mundo poderemos travar esta troika de calor, fogo e seca - são argumentos verdadeiros, mas esgrimidos de forma falaciosa.