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Rafael Barbosa

Não pintem a cara de preto

1. Os meninos e meninas da escola primária do Godinho, em Matosinhos, foram brincar ao Carnaval. Como se isso não fosse suficientemente bizarro, participaram num desfile mascarados de africanos. Pior ainda, pintaram a cara de preto. Felizmente, a indignação não tardou. Ainda que a associação de pais tenha garantido que não se tratava de racismo. Como explicou um deputado do Bloco de Esquerda, partido sempre atento a temas fraturantes, representar a cultura africana é "uma forma de racismo invertido". O que quer que isso queira dizer. "Parece inocente, mas não é", concluiu, lapidar, o mesmo deputado. Fica uma lição para a miudagem: quando quiserem celebrar a diversidade cultural, perguntem primeiro à brigada da moral e dos bons costumes. Mas fica também a esperança de que alguém avance com uma providência cautelar que acabe com as matrafonas. Já chega de machismo invertido.

Rafael Barbosa

O tudo ou nada

O partido mais português de Portugal vai a votos. Pode acontecer tudo e nada. Sendo certo que o "tudo" não é sinónimo de vitória de Luís Montenegro, da mesma forma que o "nada" não é sinónimo da continuidade de Rui Rio. Até aqui, reconheço, mais não se leu do que lugares-comuns e afirmações crípticas. Mas, afinal, não é sobretudo essa - frases feitas e jogadas obscuras - a matéria com que se faz grande parte da política nos dois maiores partidos do nosso sistema? Se alguém tem dúvidas, é só perguntar ao cidadão comum. Ou acompanhar o remoer das redes sociais. Voltemos ao princípio. Ser o partido mais português de Portugal será coisa boa? Para quem privilegia a busca de votos e a conquista do poder, será. E é isso que será avaliado, esta tarde, no Conselho Nacional do PSD: saber quem está em condições de chegar (e entregar) mais rapidamente o poder, que é o que exige sempre a elite dirigente do PSD (tal como a do PS), e mais ainda o pessoal intermédio dos aparelhos, que sobrevivem em torno dessas elites. Mais logo se saberá o que muda, seja com um novo líder, seja com um líder renovado. Mas, se essa mudança é uma mão cheia de quase nada (oposição) ou se conduzirá a quase tudo (conquista do poder), só saberemos a 6 de outubro, data das eleições legislativas. Por garantido só se pode dar que, com um líder ou com outro, o PSD continuará a ser um partido "catch-all" (o sucesso eleitoral em vez da ideologia, para resumir o conceito de Otto Kirchheimer). Às vezes funciona (Cavaco Silva garantiu uma década consecutiva de poder e respetivas prebendas), outras não (o PSD esteve sete anos seguidos afastado do Governo no tempo de Guterres). Quanto ao resto, seja o resultado de hoje, seja o de outubro, façamos como propunha um jogador de futebol, no que já merecia ser considerada uma máxima política de primeira água: prognósticos só no fim do jogo.

Rafael Barbosa

Até sempre

Era suposto a crónica ser sobre a mulher que ousou contestar o patrão da Fernando Couto - Cortiças. A operária que venceu em tribunal o capataz da fábrica de Paços de Brandão, com direito a reintegração por despedimento ilegal e indemnização por assédio. A mãe vítima de vingança mesquinha, carregando e descarregando, todos os dias, os mesmos sacos de rolhas. A mulher, operária e mãe que uns quantos colegas tolhidos pela ignorância ou pelo medo asseguram que precisa de aprender a lição. Mas também era suposto a crónica ser sobre a mulher vítima de dois violadores, enquanto jazia inconsciente na casa de banho de uma discoteca de Gaia. A mulher que, segundo um acórdão do Tribunal da Relação do Porto, não foi vítima de um crime de ilicitude elevada, porque não há danos físicos, nem violência. A mulher que carrascos de toga violaram uma segunda vez, agora em público. A crónica era para ser sobre as duas mulheres, mas meteram-se pelo meio duas perdas. Primeiro chegou-me a notícia da morte do Nuno Silva, jornalista do JN, com a força de uma pedrada atirada à falsa fé. Minutos depois, a notícia da morte do Altino Madureira, que a família já esperava, mas ninguém queria ouvir. Seria possível dedicar mais linhas a qualquer dos dois. Já não as tenho, mas não faz mal. Acredito que ambos teriam concordado que não podia deixar nenhumas das histórias acima por contar. Não prometo, como a Margarida, que um dia hei de dizer de viva voz à Matilde, a filha do Nuno, que o pai era um homem bom. Não prometo à Teresa que serei eu agora a chamar-lhe Cris, como só fazia o Altino, esse outro homem bom. Limito-me a testemunhar que passaram pela minha vida, que deixaram marca, e que farão parte da minha história, enquanto ela durar. No caso do Nuno, também fará parte da história do JN. É pouco, comparado com a violência da perda, mas vai ter de servir. Até sempre camarada Nuno. Até sempre Altino.

Rafael Barbosa

A regulação é uma balela

Autoridade da Concorrência (AdC). Ora aí está um organismo que a maior parte dos portugueses não sabe bem para que serve (há que considerar a hipótese de essa ignorância se fundar precisamente no facto de não servir para nada). Ainda assim, sabemos que integra o peculiar universo dos "reguladores". Ou seja, do conjunto de senhores muito conhecedores e muito independentes (e daí os salários generosos) que vigiam os mercados mais importantes e complexos. Quando os nossos melhores vigiam o que é mais importante, já sabemos qual é o resultado (seja na Banca, nas telecomunicações, na aviação e nos aeroportos, nos combustíveis, ou na eletricidade). Não se incomodem com o paradoxo, é o menos. O pior é mesmo que a conta é sempre paga pelo consumidor ou pelo contribuinte. Tenha feito ou não o respetivo consumo. Não está a perceber nada? Não se preocupe, ninguém percebe. Pelo menos até se assistir à transformação de Abel Mateus, ex-presidente da AdC, de "regulador" em "populista" (na versão boa, de defensor dos direitos populares). Foi assim como assistir à passagem de Clark Kent a Super-Homem, mas em versão parlamentar, e portanto mantendo o fato e a gravata. Disse Abel Mateus que a liberalização do mercado elétrico "é uma balela". Mas uma balela que custou aos portugueses qualquer coisa como 23 mil milhões de euros a mais no preço da eletricidade ao longo dos últimos 12 anos (2300 euros por cabeça). Um gamanço que compara com o que se passou na Banca, com a injeção forçada de 25 mil milhões de euros (2500 euros por cabeça). Conclui o ex-regulador que a hipótese que agora se atira por aí de reduzir o IVA da eletricidade, de 23% para 6%, "não é uma solução, é um paliativo". Mais um tiro certeiro. É só fazer as contas: com uma poupança de 120 milhões de euros anuais no IVA, seriam precisos 191 anos para recuperar os 23 mil milhões pagos a mais. Esqueçam lá isso. Mais vale usar o dinheiro a contratar reguladores.

Rafael Barbosa

Migrantes

1095, 318, 99. Não são números ao acaso, antes uma estimativa de migrantes mortos nas três principais rotas do Mediterrâneo (Itália, Espanha e Grécia), nos primeiros sete meses deste ano. Foram divulgados pelo Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, para coincidir com os três anos do aparecimento numa praia da Turquia de Alan Kurdi, menino sírio de dois anos. Dizem-nos ainda os números que aumentou a taxa de mortalidade dos que se fazem ao mar em busca de uma vida digna para si e para os seus. Entre outras razões porque, para europeus de vários quadrantes geográficos e políticos, salvar vidas no mar deixou de ser um imperativo moral ou legal. De qualquer forma, números fáceis de digerir. Porque é raro darem origem a fotos suficientemente belas, ainda que trágicas, que justifiquem partilha no Facebook, como a de Alan. 5000. Outro número. A quantidade de dólares que Tima Kurdi enviou ao irmão, Abdullah, para a travessia do Mediterrâneo. A tia de Alan estava há muito no Canadá e acompanhava a saga da família, acossada pela guerra e pela miséria. Também ela viu a foto e reconheceu a tragédia, sem precisar que lhe dessem um nome. O polo vermelho, os calções azuis e os sapatos do rapazinho morto na orla do mar fora ela que os oferecera. Três anos depois, para além da culpa, Tima sente necessidade de carregar ideias simples: "Nós também somos seres humanos. Celebramos os aniversários, trabalhamos, estudamos". O problema é que "nós" é agora sinónimo de "outros". Tons de pele e religiões diferentes. Pouco dinheiro. Tivesse a família Kurdi 71 150 euros (outro número) e poderia ter comprado um apartamento e um visto gold na Letónia. Preço de saldo. Aqui em Portugal, no outro extremo da União Europeia, há padrões mais elevados: cobramos 500 mil. Não dá para sírios, nigerianos ou iraquianos perseguidos pela guerra ou pela fome, só para russos, chineses, brasileiros e americanos que perseguem um livre-trânsito europeu. Gente que, não deixando de ser um número, acrescenta numerário.