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Rafael Barbosa

Neurónios em vez de músculo

Parecia que estávamos de regresso a um telejornal de março ou abril. Escalpelizavam-se números a nível nacional, detalhavam-se números regionais, faziam-se apontamentos de reportagem onde quer que houvesse um caso, mostrava-se o repórter junto a um lar, voltava-se aos números em estúdio, desta vez por escalões etários, viajava-se para Norte, onde o veterano de guerra de Ovar pedia intervenções musculadas na capital. Vinha aí, portanto, o apocalipse.

Rafael Barbosa

Não há remédio

Para grandes males, grandes remédios. Um adágio que parece ter sido escrito para tempos como os que vivemos. Uma emergência sanitária que se transformou numa profunda crise económica e evolui para uma crise social desastrosa. Há um preço a pagar pela opção de ficar em casa. Em troca de maior resguardo ao vírus, que não atravessa paredes, ficámos expostos a um conjunto de outras doenças que nos bateram à porta: ao fecho de milhares de negócios e empresas que deixaram tantos pequenos empresários e as suas famílias sem sustento; aos despedimentos de milhares de trabalhadores precários (sempre os primeiros a pagar a fatura); ao lay-off (redução salarial) para mais de um milhão de pessoas; e, em casos mais extremos, à fome, cada vez mais visível nas ruas. Grandes males, portanto. Que exigiriam grandes remédios. Usemos dois exemplos dos últimos dias. O primeiro dirigiu-se aos concessionários de autoestradas, que tinham receita garantida, mesmo que não circulasse um único carro. Um daqueles contratos que ajudou à bancarrota de 2011. O Estado avisou os baronetes do asfalto que não vai pagar em dinheiro, mas na verdade não os deixará de mãos a abanar e admite pagar em espécie, prolongando os contratos no tempo. Ainda assim, já se anuncia o que aí virá: processos em tribunal e, a julgar pelo caso das famigeradas "swaps", uma conta ainda mais gorda para pagar. O segundo exemplo tem a ver com a tentativa de PCP, PAN e BE impedirem as grandes empresas de se comportarem como nababos orientais e travar o pagamento de dividendos. A iniciativa não passará, uma vez que os dirigentes do PS e do PSD apreciam doses de populismo ocasional sobre a Banca, mas nada que interferira com a vida das grandes empresas e a necessidade de manter bem oleada a famosa placa giratória. A Galp (318 milhões), a REN (114 milhões) e a EDP (694 milhões), três empresas que já foram públicas, têm luz verde para continuar a festa, como se nada tivesse acontecido. Grandes males, grande remédios? Os adágios já não têm o valor que tinham.

Rafael Barbosa

Cadeiras vazias

1. Já aconteceu ser o PS. Desta vez é o PSD. O país, dizem-nos, precisa de uma reforma do sistema político. Leia-se uma das frases que Rui Rio escolheu para justificar a proposta: "Ou damos todos [os partidos] um murro na mesa, ou o descrédito será cada vez maior. Inovar, adaptar os partidos ao século XXI, alterar o sistema político, voltar a conciliar as pessoas com os partidos é absolutamente vital para a democracia". Saiu da boca do líder do PSD, podia ter sido o líder do PS. Na verdade, com eventuais diferenças de contexto, encaixaria no discurso de qualquer político. É uma afirmação de "marca branca". Está tudo disponível em qualquer supermercado de ciência política. Revolucionário para o sistema político e para a democracia seriam outras coisas. Por exemplo, menos demagogia e promessas a eito. Menos apropriação e distribuição de cargos, bens e prebendas do Estado por parte da família alargada e da clientela partidária, de cada vez que muda o Governo. E, para aproximar eleitos de eleitores, avançar com a criação de regiões e respetivos representantes. Coisas que talvez fizessem mais pelo crédito dos partidos do que propor que os cidadãos passem a ser representados por cadeiras vazias.