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Rafael Barbosa

Migrantes

1095, 318, 99. Não são números ao acaso, antes uma estimativa de migrantes mortos nas três principais rotas do Mediterrâneo (Itália, Espanha e Grécia), nos primeiros sete meses deste ano. Foram divulgados pelo Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, para coincidir com os três anos do aparecimento numa praia da Turquia de Alan Kurdi, menino sírio de dois anos. Dizem-nos ainda os números que aumentou a taxa de mortalidade dos que se fazem ao mar em busca de uma vida digna para si e para os seus. Entre outras razões porque, para europeus de vários quadrantes geográficos e políticos, salvar vidas no mar deixou de ser um imperativo moral ou legal. De qualquer forma, números fáceis de digerir. Porque é raro darem origem a fotos suficientemente belas, ainda que trágicas, que justifiquem partilha no Facebook, como a de Alan. 5000. Outro número. A quantidade de dólares que Tima Kurdi enviou ao irmão, Abdullah, para a travessia do Mediterrâneo. A tia de Alan estava há muito no Canadá e acompanhava a saga da família, acossada pela guerra e pela miséria. Também ela viu a foto e reconheceu a tragédia, sem precisar que lhe dessem um nome. O polo vermelho, os calções azuis e os sapatos do rapazinho morto na orla do mar fora ela que os oferecera. Três anos depois, para além da culpa, Tima sente necessidade de carregar ideias simples: "Nós também somos seres humanos. Celebramos os aniversários, trabalhamos, estudamos". O problema é que "nós" é agora sinónimo de "outros". Tons de pele e religiões diferentes. Pouco dinheiro. Tivesse a família Kurdi 71 150 euros (outro número) e poderia ter comprado um apartamento e um visto gold na Letónia. Preço de saldo. Aqui em Portugal, no outro extremo da União Europeia, há padrões mais elevados: cobramos 500 mil. Não dá para sírios, nigerianos ou iraquianos perseguidos pela guerra ou pela fome, só para russos, chineses, brasileiros e americanos que perseguem um livre-trânsito europeu. Gente que, não deixando de ser um número, acrescenta numerário.

Rafael Barbosa

Paddy, Le Pen e os patetas

O verão não se faz apenas de dias na praia, de refeições sem hora marcada, de conversas intermináveis noite dentro com os amigos, de livros de lombada grossa, de fotos de pés com a piscina em fundo, de cerveja fresca numa esplanada, de viagens para destinos próximos ou longínquos. Para que haja verdadeiramente a sensação de verão, são precisas, para além de memórias a sério como as citadas acima, umas pitadas do que se convencionou chamar "silly season" (estação pateta, para os menos entendidos em língua inglesa).

Rafael Barbosa

Política com blush e rímel

Não sou um especialista em maquilhagem, mas arrisco o palpite: aplique-se apenas o quanto baste, para fugir a caricaturas: demasiada base e fica-se com o ar emproado do palhaço rico; demasiado blush na bochecha e fica-se com o ar esborratado do palhaço pobre. Não há aqui sexismo. É verdade que este é território sobretudo de meninas, mas não está vedado aos meninos. Menos ainda quando, como é o caso, a maquilhagem surge em sentido figurado. Ou, dito de outra maneira, aparece apenas para maquilhar uma incursão na política.

Rafael Barbosa

90 minutos, com sorte…

Cavani, avançado uruguaio que atirou Portugal para fora do Mundial, escreveu uma carta a Edinson. O primeiro tem 31 anos, o segundo tem nove. Mas são a mesma pessoa. Vale a pena ler o texto na íntegra (na publicação online "The Players Tribune"). E uma passagem em particular. Diz a estrela de futebol, agora habituado a uma vida de luxo em Paris, ao menino pobre de Montevideu que foi, e a quem faltava quase tudo (que não a bola e o sonho): "Quando és uma criança, tens a sensação de que a pessoa mais bem-sucedida é aquela que tem mais coisas. Quando cresces, percebes que a pessoa mais bem-sucedida é aquela que tem a sabedoria de viver a vida. Quando conseguires ser bem-sucedido no futebol, terás tudo aquilo com que podes sonhar. E terás de ser extremamente grato por isso. Mas tenho que ser honesto contigo. Existe apenas um lugar onde podes ter liberdade total. Dura 90 minutos, se tiveres sorte!". O tempo de um jogo. O melhor do futebol. Por oposição ao que tem de pior, que é quase tudo o resto. No futebol português, os últimos meses (como os que estão para vir), são exemplares. Da vulgaridade, da falta de princípios, da violência, da demência. E do crime fiscal, como se lê no mais recente relatório de combate à fraude e evasão fiscal. São pelo menos 90 processos instaurados pela Autoridade Tributária e Aduaneira relacionados com a contratação e transferência de jogadores. Não vale a pena ter ilusões. Mesmo um grande futebolista pode ser um mau cidadão. Veja-se Ronaldo, exemplar dentro do campo, condenado a pena de prisão fora dele. Voltemos à carta que Cavani escreveu a Edinson: "Em muitos aspetos, vives um sonho. Em muito outros, és prisioneiro desse sonho. Não podes sair e sentir o sol. Não podes tirar as chuteiras e jogar na terra. Acontecerão coisas que vão complicar a tua vida. É inevitável". Sobram os 90 minutos. Com sorte...

Rafael Barbosa

Civilização e barbárie

Parece que Trump vai recuar. Parece que vai acabar a separação forçada de pais e filhos. Talvez tenha sido por causa da divulgação do áudio do menino que chorava pelo pai. Talvez tenha sido por causa das críticas de Melania, que também é mãe. Talvez tenha sido por pressão de alguns dos barões republicanos ameaçados pela derrota eleitoral. Ainda assim, e mesmo que se confirme o fim de uma medida desumana, não é caso para cantar vitória. A civilização não está a ganhar à barbárie. Nem nos EUA, nem na Europa. Há um discurso que deixou as ruas para se instalar nos gabinetes do poder. Há uma mensagem de ódio antes gritada por uns quantos extremistas que passou a ser assumida, com o indispensável polimento das chancelarias, por diferentes formações políticas alegadamente democráticas. Há um mal que se vai instalando, que começa por admitir algumas exceções aos direitos humanos, para mais tarde transformar a exceção em regra. Veja-se o caso italiano. Enquanto o navio Aquarius e mais de 600 africanos eram empurrados em direção a Espanha, não deixaram de chegar migrantes aos portos italianos. Essa maré não terá fim. Mas o exemplo é que conta e foi o suficiente para o ministro do Interior, Salvini, cantar vitória e lançar as raízes de uma nova política de desumanidade: já não há a obrigação de garantir o socorro a náufragos no mar. Nos últimos seis anos, desde Lampedusa - lembram-se das fotografias com dezenas de caixões alinhados? ¬-, já terão morrido cerca de 16 mil pessoas no Mediterrâneo. Fomos derramando ocasionalmente umas lágrimas. Mas a presidente da Câmara da pequena ilha italiana, Giusi Nicolini, que recebeu o Papa, que visitou Obama, já não é autarca. Os eleitores preferiram um político defensor da lei e da ordem a uma campeã dos direitos humanos. Trump pode recuar. Mas a civilização não está a ganhar à barbárie. Ainda não.

Rafael Barbosa

Futebol ou sexo?

Bem sei que o escândalo mais recente remete para o Benfica e para as suspeitas de fraude fiscal que a PJ investiga, material propício a conclusões fulgurantes sobre o apodrecimento do mundo do futebol. Bem sei que Bruno de Carvalho continua à frente do Sporting e portanto a municiar análises acutilantes em que se cruzam casos de polícia com os efeitos do "burnout". Sei tudo isso, mas também que são temas demasiado sérios para tratar em tão poucos carateres de uma página de jornal. São temas que, pela sua complexidade, exigem dissecação em programas de debate sem limite de tempo. São temas, finalmente, que exigem espaço televisivo, onde o fulgor e a acutilância são sempre mais vistosos.