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Rafael Barbosa

Até sempre

Era suposto a crónica ser sobre a mulher que ousou contestar o patrão da Fernando Couto - Cortiças. A operária que venceu em tribunal o capataz da fábrica de Paços de Brandão, com direito a reintegração por despedimento ilegal e indemnização por assédio. A mãe vítima de vingança mesquinha, carregando e descarregando, todos os dias, os mesmos sacos de rolhas. A mulher, operária e mãe que uns quantos colegas tolhidos pela ignorância ou pelo medo asseguram que precisa de aprender a lição. Mas também era suposto a crónica ser sobre a mulher vítima de dois violadores, enquanto jazia inconsciente na casa de banho de uma discoteca de Gaia. A mulher que, segundo um acórdão do Tribunal da Relação do Porto, não foi vítima de um crime de ilicitude elevada, porque não há danos físicos, nem violência. A mulher que carrascos de toga violaram uma segunda vez, agora em público. A crónica era para ser sobre as duas mulheres, mas meteram-se pelo meio duas perdas. Primeiro chegou-me a notícia da morte do Nuno Silva, jornalista do JN, com a força de uma pedrada atirada à falsa fé. Minutos depois, a notícia da morte do Altino Madureira, que a família já esperava, mas ninguém queria ouvir. Seria possível dedicar mais linhas a qualquer dos dois. Já não as tenho, mas não faz mal. Acredito que ambos teriam concordado que não podia deixar nenhumas das histórias acima por contar. Não prometo, como a Margarida, que um dia hei de dizer de viva voz à Matilde, a filha do Nuno, que o pai era um homem bom. Não prometo à Teresa que serei eu agora a chamar-lhe Cris, como só fazia o Altino, esse outro homem bom. Limito-me a testemunhar que passaram pela minha vida, que deixaram marca, e que farão parte da minha história, enquanto ela durar. No caso do Nuno, também fará parte da história do JN. É pouco, comparado com a violência da perda, mas vai ter de servir. Até sempre camarada Nuno. Até sempre Altino.

Rafael Barbosa

A regulação é uma balela

Autoridade da Concorrência (AdC). Ora aí está um organismo que a maior parte dos portugueses não sabe bem para que serve (há que considerar a hipótese de essa ignorância se fundar precisamente no facto de não servir para nada). Ainda assim, sabemos que integra o peculiar universo dos "reguladores". Ou seja, do conjunto de senhores muito conhecedores e muito independentes (e daí os salários generosos) que vigiam os mercados mais importantes e complexos. Quando os nossos melhores vigiam o que é mais importante, já sabemos qual é o resultado (seja na Banca, nas telecomunicações, na aviação e nos aeroportos, nos combustíveis, ou na eletricidade). Não se incomodem com o paradoxo, é o menos. O pior é mesmo que a conta é sempre paga pelo consumidor ou pelo contribuinte. Tenha feito ou não o respetivo consumo. Não está a perceber nada? Não se preocupe, ninguém percebe. Pelo menos até se assistir à transformação de Abel Mateus, ex-presidente da AdC, de "regulador" em "populista" (na versão boa, de defensor dos direitos populares). Foi assim como assistir à passagem de Clark Kent a Super-Homem, mas em versão parlamentar, e portanto mantendo o fato e a gravata. Disse Abel Mateus que a liberalização do mercado elétrico "é uma balela". Mas uma balela que custou aos portugueses qualquer coisa como 23 mil milhões de euros a mais no preço da eletricidade ao longo dos últimos 12 anos (2300 euros por cabeça). Um gamanço que compara com o que se passou na Banca, com a injeção forçada de 25 mil milhões de euros (2500 euros por cabeça). Conclui o ex-regulador que a hipótese que agora se atira por aí de reduzir o IVA da eletricidade, de 23% para 6%, "não é uma solução, é um paliativo". Mais um tiro certeiro. É só fazer as contas: com uma poupança de 120 milhões de euros anuais no IVA, seriam precisos 191 anos para recuperar os 23 mil milhões pagos a mais. Esqueçam lá isso. Mais vale usar o dinheiro a contratar reguladores.

Rafael Barbosa

Migrantes

1095, 318, 99. Não são números ao acaso, antes uma estimativa de migrantes mortos nas três principais rotas do Mediterrâneo (Itália, Espanha e Grécia), nos primeiros sete meses deste ano. Foram divulgados pelo Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, para coincidir com os três anos do aparecimento numa praia da Turquia de Alan Kurdi, menino sírio de dois anos. Dizem-nos ainda os números que aumentou a taxa de mortalidade dos que se fazem ao mar em busca de uma vida digna para si e para os seus. Entre outras razões porque, para europeus de vários quadrantes geográficos e políticos, salvar vidas no mar deixou de ser um imperativo moral ou legal. De qualquer forma, números fáceis de digerir. Porque é raro darem origem a fotos suficientemente belas, ainda que trágicas, que justifiquem partilha no Facebook, como a de Alan. 5000. Outro número. A quantidade de dólares que Tima Kurdi enviou ao irmão, Abdullah, para a travessia do Mediterrâneo. A tia de Alan estava há muito no Canadá e acompanhava a saga da família, acossada pela guerra e pela miséria. Também ela viu a foto e reconheceu a tragédia, sem precisar que lhe dessem um nome. O polo vermelho, os calções azuis e os sapatos do rapazinho morto na orla do mar fora ela que os oferecera. Três anos depois, para além da culpa, Tima sente necessidade de carregar ideias simples: "Nós também somos seres humanos. Celebramos os aniversários, trabalhamos, estudamos". O problema é que "nós" é agora sinónimo de "outros". Tons de pele e religiões diferentes. Pouco dinheiro. Tivesse a família Kurdi 71 150 euros (outro número) e poderia ter comprado um apartamento e um visto gold na Letónia. Preço de saldo. Aqui em Portugal, no outro extremo da União Europeia, há padrões mais elevados: cobramos 500 mil. Não dá para sírios, nigerianos ou iraquianos perseguidos pela guerra ou pela fome, só para russos, chineses, brasileiros e americanos que perseguem um livre-trânsito europeu. Gente que, não deixando de ser um número, acrescenta numerário.

Rafael Barbosa

Paddy, Le Pen e os patetas

O verão não se faz apenas de dias na praia, de refeições sem hora marcada, de conversas intermináveis noite dentro com os amigos, de livros de lombada grossa, de fotos de pés com a piscina em fundo, de cerveja fresca numa esplanada, de viagens para destinos próximos ou longínquos. Para que haja verdadeiramente a sensação de verão, são precisas, para além de memórias a sério como as citadas acima, umas pitadas do que se convencionou chamar "silly season" (estação pateta, para os menos entendidos em língua inglesa).