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Rafael Barbosa

Mentira ou ignorância? Ventura que escolha

Recorde-se o filme dos acontecimentos: primeiro, André Ventura expôs as suas teorias xenófobas no Parlamento; depois, Augusto Santos Silva decidiu que, mais importante do que manter a imparcialidade do cargo de presidente da Assembleia da República, era contrariar ele próprio o populismo histriónico; e esse foi o pretexto para o número circense em que Ventura e respetiva corte abandonaram o plenário. Tenho ouvido dizer que, neste episódio, o único que ganhou alguma coisa foi André Ventura. Permito-me discordar. Não há nada a ganhar na política com a ignorância ou a mentira (terá de ser o líder do Chega a esclarecer qual o substantivo que melhor se aplica).

Rafael Barbosa

O estado da nação

O debate sobre o estado da nação é um daqueles momentos que, apesar de fazer parte da liturgia política, não costuma ficar na memória. Os governos fazem o seu balanço, encontrando sempre razões para prever tempos melhores, enquanto as oposições contrapõem, prevendo sempre tempos mais ou menos sombrios. E depois vão todos de férias (com a exceção dos ministros da Administração Interna, que ficam para apagar os fogos), e nós com eles (os que podem).

Rafael Barbosa

Crónica de uma morte anunciada

1. O aviso de Rui Moreira. Em março deste ano, em entrevista ao JN, o autarca do Porto lançou o alerta: "Temo que a descentralização seja o enterro definitivo da regionalização". Na altura, depois de uma vitória socialista com maioria absoluta, incluindo no pacote a promessa de um referendo em 2024, parecia catastrofista. Ou uma boa frase para fazer um título (que aliás fez). Três meses depois, no entanto, o oráculo de Moreira arrisca ser mais certeiro que os da famosa sacerdotisa de Delfos.

Rafael Barbosa

As rimas da História

A História nunca se repete, mas rima muitas vezes. A frase costuma ser atribuída ao escritor americano Mark Twain (pelo menos as gerações mais velhas hão de lembrar-se das aventuras de Tom Sawyer e Huckleberry Finn). E ainda que haja dúvidas sobre a autoria, o aforismo é certeiro. Como se confirma nos dias que correm, em que sucessivas cimeiras descrevem um Mundo que entra, de novo, na guerra fria. De um lado, o chamado mundo ocidental (a que Portugal pertence por geografia, cultura e convicção democrática); do outro, a Rússia (cada vez mais próxima de uma ditadura czarista) e a China (uma ditadura comunista e capitalista).

Rafael Barbosa

Os irredutíveis gauleses

Não foi há muito que aqui escrevi que não é fácil a um português perceber o que se passa na política francesa. Na verdade, foi há dois meses e a propósito da primeira volta das eleições presidenciais. Nessa altura, para destacar que os vários candidatos "radicais" (de Esquerda e de Direita) somaram 60% dos votos. E que os candidatos dos partidos "tradicionais" do centro-esquerda e do centro-direita (os equivalentes aos nossos PS e PSD) tinham sido enxovalhados, com 6%. Assim dito, quase parecia que vinha aí o fim do Mundo. Ou, pelo menos, que ia ser preciso reescrever os manuais de ciência política.

Rafael Barbosa

Emagrecer por decreto

1. Não é uma questão de opinião, é factual. A inflação em maio foi de 8,1%. A gasolina e o gasóleo estão mais caros. Quase todos os bens e serviços, incluindo os essenciais, estão mais caros. A comida está mais cara. Como a atualização dos rendimentos não acompanha a taxa de inflação, os portugueses estão a empobrecer. E são cada vez mais os que já não conseguem pôr comida na mesa. Não é opinião, é facto denunciado pelas mais respeitadas instituições de solidariedade social: há cada vez mais gente a pedir ajuda e há cada vez menos gente com capacidade para ajudar. Perante isto, o que faz o Estado? Incentiva o emagrecimento forçado e decide, por decreto, reduzir de 120 mil para 90 mil o número de pessoas com acesso ao cabaz de alimentos que distribui aos mais vulneráveis. Faz algum sentido? Para quem usa o coração e a cabeça, não faz nenhum. Para um Governo em estado de negação, pelos vistos faz.

Rafael Barbosa

A paz dos cemitérios

1. Dois meses depois do início da guerra, António Guterres foi a Moscovo (e amanhã a Kiev). Foi fazer o que lhe compete, enquanto líder da ONU: tentar construir um caminho para a paz. Não é aconselhável, no entanto, alimentar ilusões. A tentativa é louvável e necessária (mesmo que tardia), mas, para que haja paz, é necessário que ambas as partes a desejem. Ou que outros sejam capazes de a impor. E é bastante evidente que não existe nem esse desejo, nem essa força. Nem por parte da Rússia, o agressor, que está longe de conseguir atingir objetivos mínimos (e muito menos os máximos, que eram o de conquistar Kiev e derrubar o regime ucraniano). Nem por parte da Ucrânia, que não só não aceitará perder o controlo de parte do seu território, como é todos os dias empurrada para um ideal de vingança, tal é o nível de atrocidades cometido pelo invasor (execuções de civis, violações de mulheres, morte de crianças). Nem por parte dos países ocidentais: no mesmo dia em que Guterres conversava com o autocrata de Moscovo, a Alemanha cedia à pressão e anunciava a cedência de blindados com sistema de mísseis antiaéreos à Ucrânia; e os EUA juntavam 40 países numa base militar alemã, prometendo mover "céus e terra" na ajuda militar à Ucrânia. Infelizmente para Guterres e para a humanidade, as trombetas da paz são abafadas pelos tambores da guerra. Paz, por enquanto, só a dos cemitérios.

Rafael Barbosa

Os refugiados não são todos iguais

1. Todos temos testemunhado a notável onda de solidariedade dos portugueses relativamente aos ucranianos que fogem da guerra. Alguns vão até nas suas carrinhas, carregadas de mantimentos à ida e de refugiados à volta. Não surpreende, por isso, que 44% dos portugueses estejam totalmente de acordo com a política de portas abertas, sem quaisquer limitações, decidida pelo Governo. Mas não se deitem demasiados foguetes quanto à nossa vontade de acolher os deserdados deste Mundo. Para além do horror da guerra e da compaixão por quem sofre, a proximidade cultural, religiosa e étnica dos ucranianos deu uma ajuda. Basta olhar para os resultados da mesma pergunta, mas para refugiados sírios (em guerra há mais de uma década), afegãos (na fuga aos talibãs apenas uma ínfima minoria teve o prémio europeu) ou de um qualquer país africano em guerra: só 22% concordam totalmente com a política de portas abertas, sem limitações, a esta gente de culturas, religiões, etnias e até diferentes cores de pele.

Rafael Barbosa

Sinais de paz e de egoísmo

1. Os sinais são ténues. Mas é possível vislumbrar uma saída para a guerra. Um deles chega do presidente da Ucrânia. Que vai repetindo, uma e outra vez, que não lhe parece possível que o seu país venha a aderir à NATO. Recorde-se que essa é uma das condições do cabo de guerra que governa a Rússia. Outros sinais chegam do agressor. Que outra coisa é, senão sinal de fraqueza, bombardear prédios de habitação? Que outra coisa é, senão sinal de desespero, contratar combatentes sírios experimentados nos crimes da guerra urbana? É um paradoxo, mas talvez se venha a perceber (esperemos que mais cedo do que tarde) que, ao dar rédea solta a todos os seus cães de guerra (incluindo os famigerados combatentes chechenos), a Rússia esteja apenas a mostrar que o exército mais poderoso da Europa não tem força para quebrar a resistência do povo ucraniano.