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Rafael Barbosa

Cadeiras vazias

1. Já aconteceu ser o PS. Desta vez é o PSD. O país, dizem-nos, precisa de uma reforma do sistema político. Leia-se uma das frases que Rui Rio escolheu para justificar a proposta: "Ou damos todos [os partidos] um murro na mesa, ou o descrédito será cada vez maior. Inovar, adaptar os partidos ao século XXI, alterar o sistema político, voltar a conciliar as pessoas com os partidos é absolutamente vital para a democracia". Saiu da boca do líder do PSD, podia ter sido o líder do PS. Na verdade, com eventuais diferenças de contexto, encaixaria no discurso de qualquer político. É uma afirmação de "marca branca". Está tudo disponível em qualquer supermercado de ciência política. Revolucionário para o sistema político e para a democracia seriam outras coisas. Por exemplo, menos demagogia e promessas a eito. Menos apropriação e distribuição de cargos, bens e prebendas do Estado por parte da família alargada e da clientela partidária, de cada vez que muda o Governo. E, para aproximar eleitos de eleitores, avançar com a criação de regiões e respetivos representantes. Coisas que talvez fizessem mais pelo crédito dos partidos do que propor que os cidadãos passem a ser representados por cadeiras vazias.

Rafael Barbosa

"Estamos todos loucos?"

Foi um tema incontornável deste mês de agosto. Mesmo para quem esteve de férias. Mesmo para quem fez o esforço de se manter distante da atualidade. O tema era relevante e teve acompanhamento permanente dos jornais, conferindo-lhe uma visibilidade anormal. Acresce que tinha uma boa dose de espetacularidade, pelas imagens e pelo enredo de novela, e isso garante a atenção das televisões. Houve gritos, raiva e desespero. Houve protestos e uma violência sempre latente, fosse verbal, psicológica ou física. Houve decretos ministeriais e decisões de tribunais. Os protagonistas atacaram-se sem pudor e até se insultaram. O tema contaminou a ação governativa e trouxe turbulência política, até por haver eleições como pano de fundo. E, por último, conferindo volume ao tema, houve a "pança". Eu sei. Esta é a parte em que o leitor se pergunta: em que dia é que a greve dos camionistas meteu uma pança? Não meteu. O que leu não remete para a nossa alegada crise energética, que terminou por decreto à meia-noite. Antes para a centena e meia de migrantes encurralados dentro de um barco, a escassas centenas de metros da ilha italiana de Lampedusa. Gente que fugiu à violência e à fome nos seus países de origem. Náufragos que a tripulação do "Open Arms" salvou da morte no mar. Pessoas desesperadas que o Governo italiano recusa acolher nos seus portos, mesmo sabendo que há países europeus (Portugal incluído) disponíveis para os receber. O título "roubei-o" a uma crónica de Javier Cercas, no jornal espanhol "El País". Como diz o escritor catalão, quando alguém se depara com uma tragédia no mar, age com decência: recolhe os náufragos, leva-os a porto seguro, dá-lhes de comer e de beber, arranja-lhes abrigo. Só então a questão se transforma num problema político. Ou "estamos todos loucos"? Nota de rodapé: a pança é do ministro do Interior Mateo Salvini. E só aqui é referida porque a exibiu e dela falou com orgulho, enquanto fazia comícios nas praias e envergonhava os italianos (por ação) e os restantes europeus (por omissão) com a sua desumanidade.

Rafael Barbosa

O mais caro do Mundo

Quando aqueles grandes olhos castanhos se fixam nos nossos, não há margem para dúvidas. Quando uma criança de dois meses e meio enfrenta uma sentença de morte, por causa de uma doença degenerativa, não há margem para dúvidas. Quando existe um medicamento que promete a cura, não há margem para dúvidas. É preciso ir buscá-lo, seja qual for o custo. Para a Matilde e todas as outras Matildes. É um imperativo categórico, tal como o definiu o filósofo Immanuel Kant. Sucede que isto também se aplica às multinacionais. Ir buscar o medicamento a qualquer custo não é sinónimo de pagar o preço que o especulador quer impor. Embora seja precisamente isso que acontece neste Mundo em que a ganância e o lucro valem mais do que as vidas humanas. A forma como a notícia foi lançada pela Comunicação Social diz tudo. Para salvar Matilde é preciso comprar o medicamento mais caro do Mundo. Deu ótimos títulos. E dará lucros pornográficos. É verdade que a nova geração de medicamentos especializados, personalizados e inovadores (é assim que os descreve quem manda na Novartis) implicam investimentos de milhões. É verdade que a multinacional suíça pagou 7,7 mil milhões de euros pela Avexis, de olho no potencial do Zolgensma (e outras terapias genéticas). É quase o valor do orçamento anual do nosso Ministério da Saúde. Mas também é verdade, como alertam os Médicos do Mundo - a propósito de um novo medicamento contra o cancro, que custará 350 mil euros por paciente, também da Novartis - que não há como justificar semelhantes valores. Nem pelos custos de produção, nem pelo investimento em investigação, amplamente suportado por fundos públicos nos EUA e na Europa. Nos inovadores tratamentos do cancro, como nas terapias genéticas que podem salvar Matilde, "o preço da esperança" tornou-se "exorbitante". Faça-se o que for preciso para salvar as Matildes. Mas que não se dê rédea solta à amoralidade. Não podemos ficar nas mãos de traficantes de vidas humanas.

Rafael Barbosa

Bater nos pais, matar a mulher

1. Não há nada mais importante para os portugueses do que a família. Numa sondagem publicada no JN, em que se pôs "Portugal ao Espelho", não havia nada tão próximo da unanimidade como a família. É a instituição em que os portugueses mais confiam (87%). A sondagem não podia mostrar, no entanto, que a família é também uma instituição marcada pela violência. Na semana passada, no JN, publicou-se uma notícia que dava conta dos quatro mil idosos que só a PSP, nos primeiros três meses do ano, identificou como vítimas de violência. Principais agressores? A família. Ainda no JN, na edição de ontem, publicaram-se mais de uma dezena de histórias de violência, quase todas com mulheres como vítimas - e já são 17 assassinadas este ano. Principais agressores? A família. Noutros dias, também aqui no JN, somos assoberbados por casos de violência sexual sobre crianças. É verdade que a sociedade tolera menos e denuncia mais. Mas os especialistas dizem que muita desta violência familiar continua escondida. A imagem que reflete este espelho de Portugal é assustadora: gente que mata a mulher, abusa dos filhos e bate nos pais. E não, desta vez não é culpa do Estado. É nossa. É da violência que se institucionalizou em tantas famílias.

Rafael Barbosa

Depósito na reserva

1. E ao segundo dia de uma greve dos motoristas de matérias perigosas, que estava a ter entre nula e escassa atenção, instalou-se o caos. A greve por melhores salários teve uma adesão de 100%, o que talvez nos diga qualquer coisa sobre a sua justeza. Ao final da manhã, começaram a surgir as notícias de que os aeroportos de Lisboa e Faro iriam ficar sem combustível, ameaçando deixar os passageiros em terra. Ao final da tarde, assistiu-se à corrida desenfreada aos postos de combustível, ao ponto de deixar centenas deles a seco em poucas horas. O Governo também foi em crescendo na aflição. Confrontado com o incumprimento dos serviço mínimos, decretou a requisição civil, depois juntou-lhe o chavão da "situação de alerta" e, finalmente, o rótulo da "crise energética". Até o INEM deu um contributo para a sensação de pânico, pedindo aos portugueses prioridade no abastecimento. Foi tudo muito rápido, é certo, mas fica a sensação de que o Governo, que é quem tem a responsabilidade de evitar que o país entre em colapso, foi apanhado com o depósito na reserva.

Rafael Barbosa

Acordos e leis polidas

1. O assunto é sério. Está em causa a saída do Reino Unido da União Europeia. Há um acordo em cima da mesa, mas não há votos que cheguem para o aprovar. A maioria dos deputados não quer esse acordo, mas uma outra maioria (em grande parte coincidente com a primeira) também não aceita sair sem acordo. No fundo, os políticos estão de acordo que não querem o acordo, estão também de acordo sobre quererem um outro acordo, mas já não estão de acordo sobre o acordo que querem. Pode não parecer, por isso vale a pena repetir: o assunto é sério. Ou seja, nada que impeça uma boa piada. Humor negro, com uma certa dose de excesso. Humor britânico. Como o de Steve Double, que defende o Brexit. Disse o deputado conservador, sobre o acordo, dentro das solenes paredes de Westminster: "Este acordo é uma bosta, que foi entretanto lavada e polida, e portanto é agora uma bosta polida. Mas pode ser a melhor bosta que temos".

Rafael Barbosa

Não pintem a cara de preto

1. Os meninos e meninas da escola primária do Godinho, em Matosinhos, foram brincar ao Carnaval. Como se isso não fosse suficientemente bizarro, participaram num desfile mascarados de africanos. Pior ainda, pintaram a cara de preto. Felizmente, a indignação não tardou. Ainda que a associação de pais tenha garantido que não se tratava de racismo. Como explicou um deputado do Bloco de Esquerda, partido sempre atento a temas fraturantes, representar a cultura africana é "uma forma de racismo invertido". O que quer que isso queira dizer. "Parece inocente, mas não é", concluiu, lapidar, o mesmo deputado. Fica uma lição para a miudagem: quando quiserem celebrar a diversidade cultural, perguntem primeiro à brigada da moral e dos bons costumes. Mas fica também a esperança de que alguém avance com uma providência cautelar que acabe com as matrafonas. Já chega de machismo invertido.