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Rafael Barbosa

O mais caro do Mundo

Quando aqueles grandes olhos castanhos se fixam nos nossos, não há margem para dúvidas. Quando uma criança de dois meses e meio enfrenta uma sentença de morte, por causa de uma doença degenerativa, não há margem para dúvidas. Quando existe um medicamento que promete a cura, não há margem para dúvidas. É preciso ir buscá-lo, seja qual for o custo. Para a Matilde e todas as outras Matildes. É um imperativo categórico, tal como o definiu o filósofo Immanuel Kant. Sucede que isto também se aplica às multinacionais. Ir buscar o medicamento a qualquer custo não é sinónimo de pagar o preço que o especulador quer impor. Embora seja precisamente isso que acontece neste Mundo em que a ganância e o lucro valem mais do que as vidas humanas. A forma como a notícia foi lançada pela Comunicação Social diz tudo. Para salvar Matilde é preciso comprar o medicamento mais caro do Mundo. Deu ótimos títulos. E dará lucros pornográficos. É verdade que a nova geração de medicamentos especializados, personalizados e inovadores (é assim que os descreve quem manda na Novartis) implicam investimentos de milhões. É verdade que a multinacional suíça pagou 7,7 mil milhões de euros pela Avexis, de olho no potencial do Zolgensma (e outras terapias genéticas). É quase o valor do orçamento anual do nosso Ministério da Saúde. Mas também é verdade, como alertam os Médicos do Mundo - a propósito de um novo medicamento contra o cancro, que custará 350 mil euros por paciente, também da Novartis - que não há como justificar semelhantes valores. Nem pelos custos de produção, nem pelo investimento em investigação, amplamente suportado por fundos públicos nos EUA e na Europa. Nos inovadores tratamentos do cancro, como nas terapias genéticas que podem salvar Matilde, "o preço da esperança" tornou-se "exorbitante". Faça-se o que for preciso para salvar as Matildes. Mas que não se dê rédea solta à amoralidade. Não podemos ficar nas mãos de traficantes de vidas humanas.

Rafael Barbosa

Bater nos pais, matar a mulher

1. Não há nada mais importante para os portugueses do que a família. Numa sondagem publicada no JN, em que se pôs "Portugal ao Espelho", não havia nada tão próximo da unanimidade como a família. É a instituição em que os portugueses mais confiam (87%). A sondagem não podia mostrar, no entanto, que a família é também uma instituição marcada pela violência. Na semana passada, no JN, publicou-se uma notícia que dava conta dos quatro mil idosos que só a PSP, nos primeiros três meses do ano, identificou como vítimas de violência. Principais agressores? A família. Ainda no JN, na edição de ontem, publicaram-se mais de uma dezena de histórias de violência, quase todas com mulheres como vítimas - e já são 17 assassinadas este ano. Principais agressores? A família. Noutros dias, também aqui no JN, somos assoberbados por casos de violência sexual sobre crianças. É verdade que a sociedade tolera menos e denuncia mais. Mas os especialistas dizem que muita desta violência familiar continua escondida. A imagem que reflete este espelho de Portugal é assustadora: gente que mata a mulher, abusa dos filhos e bate nos pais. E não, desta vez não é culpa do Estado. É nossa. É da violência que se institucionalizou em tantas famílias.

Rafael Barbosa

Depósito na reserva

1. E ao segundo dia de uma greve dos motoristas de matérias perigosas, que estava a ter entre nula e escassa atenção, instalou-se o caos. A greve por melhores salários teve uma adesão de 100%, o que talvez nos diga qualquer coisa sobre a sua justeza. Ao final da manhã, começaram a surgir as notícias de que os aeroportos de Lisboa e Faro iriam ficar sem combustível, ameaçando deixar os passageiros em terra. Ao final da tarde, assistiu-se à corrida desenfreada aos postos de combustível, ao ponto de deixar centenas deles a seco em poucas horas. O Governo também foi em crescendo na aflição. Confrontado com o incumprimento dos serviço mínimos, decretou a requisição civil, depois juntou-lhe o chavão da "situação de alerta" e, finalmente, o rótulo da "crise energética". Até o INEM deu um contributo para a sensação de pânico, pedindo aos portugueses prioridade no abastecimento. Foi tudo muito rápido, é certo, mas fica a sensação de que o Governo, que é quem tem a responsabilidade de evitar que o país entre em colapso, foi apanhado com o depósito na reserva.

Rafael Barbosa

Acordos e leis polidas

1. O assunto é sério. Está em causa a saída do Reino Unido da União Europeia. Há um acordo em cima da mesa, mas não há votos que cheguem para o aprovar. A maioria dos deputados não quer esse acordo, mas uma outra maioria (em grande parte coincidente com a primeira) também não aceita sair sem acordo. No fundo, os políticos estão de acordo que não querem o acordo, estão também de acordo sobre quererem um outro acordo, mas já não estão de acordo sobre o acordo que querem. Pode não parecer, por isso vale a pena repetir: o assunto é sério. Ou seja, nada que impeça uma boa piada. Humor negro, com uma certa dose de excesso. Humor britânico. Como o de Steve Double, que defende o Brexit. Disse o deputado conservador, sobre o acordo, dentro das solenes paredes de Westminster: "Este acordo é uma bosta, que foi entretanto lavada e polida, e portanto é agora uma bosta polida. Mas pode ser a melhor bosta que temos".

Rafael Barbosa

Não pintem a cara de preto

1. Os meninos e meninas da escola primária do Godinho, em Matosinhos, foram brincar ao Carnaval. Como se isso não fosse suficientemente bizarro, participaram num desfile mascarados de africanos. Pior ainda, pintaram a cara de preto. Felizmente, a indignação não tardou. Ainda que a associação de pais tenha garantido que não se tratava de racismo. Como explicou um deputado do Bloco de Esquerda, partido sempre atento a temas fraturantes, representar a cultura africana é "uma forma de racismo invertido". O que quer que isso queira dizer. "Parece inocente, mas não é", concluiu, lapidar, o mesmo deputado. Fica uma lição para a miudagem: quando quiserem celebrar a diversidade cultural, perguntem primeiro à brigada da moral e dos bons costumes. Mas fica também a esperança de que alguém avance com uma providência cautelar que acabe com as matrafonas. Já chega de machismo invertido.

Rafael Barbosa

O tudo ou nada

O partido mais português de Portugal vai a votos. Pode acontecer tudo e nada. Sendo certo que o "tudo" não é sinónimo de vitória de Luís Montenegro, da mesma forma que o "nada" não é sinónimo da continuidade de Rui Rio. Até aqui, reconheço, mais não se leu do que lugares-comuns e afirmações crípticas. Mas, afinal, não é sobretudo essa - frases feitas e jogadas obscuras - a matéria com que se faz grande parte da política nos dois maiores partidos do nosso sistema? Se alguém tem dúvidas, é só perguntar ao cidadão comum. Ou acompanhar o remoer das redes sociais. Voltemos ao princípio. Ser o partido mais português de Portugal será coisa boa? Para quem privilegia a busca de votos e a conquista do poder, será. E é isso que será avaliado, esta tarde, no Conselho Nacional do PSD: saber quem está em condições de chegar (e entregar) mais rapidamente o poder, que é o que exige sempre a elite dirigente do PSD (tal como a do PS), e mais ainda o pessoal intermédio dos aparelhos, que sobrevivem em torno dessas elites. Mais logo se saberá o que muda, seja com um novo líder, seja com um líder renovado. Mas, se essa mudança é uma mão cheia de quase nada (oposição) ou se conduzirá a quase tudo (conquista do poder), só saberemos a 6 de outubro, data das eleições legislativas. Por garantido só se pode dar que, com um líder ou com outro, o PSD continuará a ser um partido "catch-all" (o sucesso eleitoral em vez da ideologia, para resumir o conceito de Otto Kirchheimer). Às vezes funciona (Cavaco Silva garantiu uma década consecutiva de poder e respetivas prebendas), outras não (o PSD esteve sete anos seguidos afastado do Governo no tempo de Guterres). Quanto ao resto, seja o resultado de hoje, seja o de outubro, façamos como propunha um jogador de futebol, no que já merecia ser considerada uma máxima política de primeira água: prognósticos só no fim do jogo.