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A água e o aborto

1 O Governo PSD/CDS decidiu monopolizar a gestão do abastecimento de água. Contra a vontade das autarquias, argumentou que a recomposição do setor traria maior eficiência na gestão e a poupança de dezenas de milhões de euros. Acontece que a eficiência e a poupança que o Estado promete, significarão afinal um aumento brutal do preço a pagar pelo consumidor. Segundo as contas de Rui Moreira, presidente da Câmara do Porto, ao longo dos próximos cinco anos a fatura vai agravar-se em 40%. Em Paredes, o autarca do PSD diz exatamente a mesma coisa. Em Gondomar, o autarca do PS estima que o aumento pode chegar aos 45%. Em Gaia, em vez de percentagens, avança-se com um custo adicional de 7,1 milhões de euros ao longo dos próximos cinco anos, que desaguará em cima dos munícipes. O que vale é que o representante do Terreiro do Paço na Águas do Norte deixa toda a gente descansada: a água só vai aumentar a um ritmo de 3% ao ano. Dito de outra forma, pela mesma fonte, os novos donos da água só vão subir o preço em 34% nos próximos cinco anos. Acresce que os aumentos só começarão a ser sentidos em 2016. Podemos portanto dormir bem lavados e devidamente hidratados, incluindo os dirigentes do PSD/CDS. O pesadelo da seca só começa depois das próximas eleições.

2 Há petições para todos os gostos. A mais recente é a que solicita que os responsáveis da "Queima do gato" de Vila Flor sejam punidos e a tradição abolida. Mas também há quem peça à Assembleia da República que obrigue a sinalizar os radares móveis das polícias, a criação de um campo de refugiados em Portugal ou o apoio aos militares ucranianos feridos na guerra com a Rússia. Quase todas as propostas acabam, às vezes mal, no caixote do lixo parlamentar. Não foi o caso, infelizmente, da petição de um conjunto de cidadãos - 48 mil - que pretende penalizar as mulheres que recorram à interrupção voluntária da gravidez. E não foi o caso porque o PSD e o CDS decidiram, no último fôlego da legislatura, piscar o olho ao eleitorado mais conservador. E assim, para além da sua própria proposta de impor uma taxa moderadora às mulheres que pratiquem um aborto, aceitam discutir o conjunto de propostas daqueles cidadãos, entre elas obrigar a mulher a ver primeiro a ecografia do embrião que vai abortar. Há outras medidas nesta iniciativa popular, mas este exemplo é suficiente para avaliar o nível de brutalidade que lhe está por detrás. Ora, que a sociedade abrigue grupos de cidadãos com gostos questionáveis, percebe-se. O que não se compreende é a facilidade com que PSD e CDS dão cobertura a iniciativas ultramontanas. E ao arrepio do que foi decidido em referendo pela maioria da população.