Opinião

A América não fica longe

A América não fica longe

É possível que Donald Trump não ganhe as eleições para presidente dos EUA (a balança do colégio eleitoral pendia, ontem à noite, por escassos gramas, para o lado de Joe Biden).

Isso será suficiente para muita gente, dentro e fora da América, respirar de alívio. Mas não devia. É possível que Trump não ganhe as eleições, mas seguramente venceu o referendo em que estas eleições se transformaram. Para muitos americanos (provavelmente para a maioria), não estava em causa a escolha entre duas personagens, ou duas opções políticas, estava em causa votar por ou contra Trump (o que também diz bastante sobre a qualidade do seu opositor).

E Trump ganha o referendo, mesmo que venha a perder o colégio eleitoral, porque, mesmo depois do incrível fluxo de dinheiro de milhares de milhões direcionado para a campanha dos democratas (e o dinheiro tem muito peso nas eleições americanas); mesmo depois de sucessivos tiros nos pés, por exemplo na gestão da pandemia; mesmo assim Trump obteve mais quatro milhões de votos do que em 2016; e graças a Trump e à sua capacidade de mobilização, os republicanos recuperaram vários lugares na Câmara de Representantes e provavelmente manterão o controlo do Senado.

Talvez os americanos (e o Mundo) se vejam livres de Trump. Mas já não será assim tão fácil atirar para trás das costas tudo o que Trump representa para a América (e para o Mundo). É fundamental olhar para as sondagens e para as tendências e lições que elas nos dão.

Por exemplo, que a mobilização de extremistas cristãos (inimigos da livre escolha das mulheres relativamente ao seu corpo) tem influência nos resultados eleitorais (76% dos brancos evangélicos votaram em Trump); que ser racista e defensor da supremacia branca não é um anátema nem para quem tem a pele mais escura (12% dos negros, sobretudo homens, votaram em Trump); que ser misógino não é um problema para quase metade do eleitorado feminino (43% das americanas votaram num homem que não perde uma oportunidade de as desqualificar); que ser xenófobo não afasta nem sequer as suas vítimas (32% dos hispânicos votaram num presidente que separou crianças dos pais migrantes e as fechou em jaulas). Não se equivoquem, a América não fica longe.

*Chefe de Redação

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