Opinião

A farsa dos sacos e das chanatas

A farsa dos sacos e das chanatas

Há imagens que ficam na memória. E na nossa memória coletiva ficou guardada a que retratou o nosso atual primeiro-ministro em férias, nos idos do verão de 2011 - quando a tormenta social e económica já se anunciava mas ainda não se sentia -, com os sacos de plástico na mão e as chanatas nos pés. O homem normal que passava férias em Manta Rota, na casa modesta de sempre, que fazia as suas compras familiares no supermercado da rua, o cidadão remediado e cumpridor que não apreciava os excessos dos que viviam acima das suas possibilidades e prometia corrigi-los. Pela primeira vez, um primeiro-ministro que era igual à maior parte dos portugueses.

É essa imagem inicial, cuidadosamente concebida e estrategicamente divulgada, mas ainda assim verosímil, que justifica a notável resistência política de Passos Coelho durante estes quatro anos de chumbo. O desemprego subiu a níveis nunca vistos, a pobreza alastrou e afetou sobretudo as crianças e os jovens, os serviços públicos regressaram aos níveis disfuncionais do século passado, os contribuintes portugueses foram espremidos com impostos "brutais", as empresas públicas foram vendidas ao desbarato à China, a dívida pública continuou a crescer sem travão, mas, a tudo isso, Passos Coelho resistiu e resiste, como bem mostram as sondagens mais recentes. Talvez porque a maioria o tenha sempre visto à luz dessa imagem inicial do fulano de gostos simples e boas contas, de um homem probo e desprendido.

O problema com as imagens construídas no "Photoshop" da política é que, mais tarde ou mais cedo, os retoques transformam-se em distorções. Até pela tentação de abusar da fórmula. Como fez Passos Coelho, há pouco mais de um ano, quando, em pleno Congresso do PSD, dedicou uma parte da sua pregação aos que "deviam pagar os seus impostos e não pagam". De novo a faceta do cidadão remediado e de boas contas que não tolera privilégios, sobretudo em tempos difíceis: "Se há quem se ponha de fora das suas obrigações para com a sociedade, sendo muito ou pouco, esse alguém está a ser um ónus para todos os outros, que têm um fardo maior". Sabemos agora que Passos Coelho foi um dos que contribuiu para que o fardo seja agora maior. Está de facto tudo esclarecido, como muito bem disse António Costa. A imagem do homem remediado e cumpridor da Manta Rota, com os seus sacos de plástico e chanatas, era uma farsa.

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