Opinião

Afinal, onde está a bola?

Afinal, onde está a bola?

Vem aí uma torrente de dinheiro. Milhares de milhões em fundos europeus. Números que estão para além da capacidade de entendimento de qualquer um de nós.

Para se tentar perceber melhor, façamos de conta que podíamos usar, com inteira liberdade, ou seja, sem a preocupação de ter de pagar as contas, toda a receita fiscal do Estado português de 2019, cerca de 46 mil milhões de euros. É assim tão grande. É até mais do que isso o que chegará ao longo dos próximos anos.

Não é certo, no entanto, que cheguemos ao fim com vontade de festejar um país mais verde, mais digital e sobretudo mais coeso, que são os paradigmas da nova geração de programas europeus. Porque, tirando um ou outro projeto grandioso, como o TGV entre Lisboa, Porto e Vigo, ou as novas linhas de metro de Lisboa e Porto, o que sabe o cidadão sobre a forma como vai ser aplicado o dinheiro com que poderemos começar a desenhar um futuro melhor?

A pergunta é retórica. Não sabe nada. Mas devia. Como alertou esta semana a comissária Elisa Ferreira, é preciso discutir onde queremos estar dentro de 10 anos. E se é preciso discutir depressa, é preciso discutir com todos. Não é seguramente com um documento encomendado a um homónimo do atual primeiro-ministro que se envolve todos e cada um dos portugueses nessa discussão.

Se o Governo tem uma estratégia, está a ser bastante discreto, para não dizer que joga às escondidas. Pergunte-se o leitor. O que lhe perguntaram sobre o país onde quer estar dentro de uma década? Que país gostaria de ajudar a construir para os seus filhos ou os seus netos? O que lhe têm dito sobre a forma como, com esta torrente de dinheiro, se vai repensar a coesão territorial e social?

Voltando a citar a comissária portuguesa, que tem precisamente o pelouro da coesão e das reformas, mais do que projetos, é preciso desenhar reformas. "A bola está do lado de cada país", avisou Elisa Ferreira, desafiando a que também por cá se faça uma profícua e participada discussão pública. "A urgência não pode impedir uma discussão abrangente", concluiu. É certo. Mas a sensação que fica, quando se olha para o terreno de jogo, é que alguém anda a esconder a bola.

*Diretor-adjunto

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