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Opinião

As marinas de Atenas

O cenário é quase surreal. Sai-se de carro do centro de Atenas, percorre-se uma das longas avenidas que liga a capital grega ao porto do Pireu, vira-se para leste e o que preenche o olhar é um contínuo de marinas ao longo de dezenas de quilómetros, com os seus milhares e milhares de luxuosos iates e veleiros. Uma prova de que ainda há muitos milhões disponíveis nas contas bancárias de muitos gregos, ainda que esses euros estejam a salvo nos cofres da banca suíça, nas mãos dos investidores da City de Londres, ou nos obscuros paraísos fiscais das Caraíbas.

Quando, numa das marinas de Faliro, se observa o iate "Aquiles", propriedade de um magnata grego da metalomecânica com residência fiscal no Liechtenstein, devidamente enquadrado num cenário de insultuosa ostentação, é fácil perder a vontade de acreditar que se esteja no mesmo país em que subsiste uma "crise humanitária" que atirou milhões de gregos para o desemprego e a pobreza.

Não há razão, no entanto, para que a dúvida persista. Não, quando se sabe que a Grécia assistiu à destruição de 25% da sua riqueza durante os cinco anos de um programa de austeridade sem sentido. Não, quando se sabe que quase metade dos jovens do país estão desempregados. Não, quando se sabe que em alguns dos bairros da imensa metrópole ateniense a taxa de desemprego chega aos 60%. Não, quando se sabe que a classe média grega foi empurrada da relativa prosperidade em que vivia (ainda que tivesse pés de barro) para um dia a dia de luta pela sobrevivência. Seria como medir a prosperidade dos portugueses a partir da posição que ocupam, no ranking da "Forbes", milionários como Belmiro de Azevedo, Alexandre Soares dos Santos ou Américo Amorim. Não se pode confundir a árvore com a floresta, mesmo que seja verdade que há muitas "árvores" nas marinas de Atenas.

O que mostram os sinais exteriores de riqueza flutuantes é que o Estado grego, para além de estar falido, é corrupto e ineficaz. Mostram que quanto maior a crise, maior a desigualdade. Por cada iate ou veleiro nas marinas de Atenas há centenas de atenienses desesperados por conseguir pagar o empréstimo da casa, a conta do supermercado ou os medicamentos na farmácia.

A reforma de que a Grécia precisa não é a do corte adicional nas pensões que a Alemanha quer impor, e que não terá outro efeito do que aumentar o desespero e a pobreza. A reforma de que a Grécia precisa vai no sentido da modernização do Estado, da eficácia fiscal e da reestruturação de um dívida que todos sabem ser impossível pagar. Uma reforma impossível se a Europa, como parece ser vontade de Merkel, continuar a apertar o garrote.

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