Opinião

Berlim não foi tomada

Berlim não foi tomada

Janeiro de 2015. Grécia. Uns anunciavam o Armagedão. Outros a revolução. O nome da besta, ou do herói, era o mesmo: Alexis Tsipras, que transformara uma pequena coligação de Esquerda radical (o acrónimo é Syriza) num partido capaz de tomar o poder, catapultado pela implosão social, económica e política do alegado berço da democracia.

"Na segunda-feira vamos acordar num país comunista?", perguntava o Nikos, uma semana antes das eleições. Uma pergunta que era uma caricatura da paixão com que tantos gregos se entregam à política. Ainda que seja verdade que Tsipras fez o que pôde para tirar partido do imaginário revolucionário. No comício de encerramento, em Atenas, ouviu-se Leonard Cohen: "First we take Manhattan, then we take Berlin". A Berlim de Merkel e Schauble, os carrascos. Com o espanhol Pablo Iglesias em palco e um "Hasta la victoria" que soou a Che Guevara, mesmo que lhe faltasse o radical "Pátria ou morte". Se essa retórica se entranhou por uma Europa que seguia de forma sôfrega o desassossego grego, a verdade é que nem uns temiam acordar num país comunista, nem outros o queriam (ou podiam) transformar de forma tão radical. Foi aliás entre os gregos que encontrei as análises mais certeiras. A Dimitra explicou-me (e aos leitores do JN) que o Syriza já era o "novo lar" do eleitorado de centro-esquerda e que assumiria "soluções de compromisso". O Akis acrescentou que a conflitualidade grega tinha "mais a ver com Freud do que com Marx" e que o Syriza iria "ceder". Quatro anos depois, fica provado que tinham razão, apesar do tumulto dos primeiros seis meses, com o referendo que rejeitava a austeridade europeia (um desafio revolucionário) e a subsequente assinatura do terceiro resgate (um compromisso doloroso). Histórias resolvidas há bastante tempo, escreve Evangelos Liaras, no "El País". O que derrotou Tsipras não foi nem a promessa de revolução, nem o ato de rendição. Não foi a ideologia ou falta dela. Foi a incapacidade de melhorar a vida da classe média e a aceitação de um tratado que permitiu a um país vizinho adotar o nome de Macedónia do Norte - uma "usurpação" que o povo grego não aceita. A Grécia regressa por isso à "normalidade". Se é que alguma vez de lá saiu.

Chefe de Redação