Opinião

Cavaco, o casamenteiro

Cavaco, o casamenteiro

O PS está, por estes dias, no centro da vida política. António José Seguro deixou, de repente, de ser a solteirona desajeitada que ninguém queria para noiva, para se transformar na moça casadoira com o dote que todos desejam.

Começou por ser cortejado por Cavaco Silva. E de imediato passou a ser visto como um bom partido pelo resto da parentela presidencial, ou seja, o Governo e os partidos que o compõem. Até o Bloco de Esquerda quis, de repente, sentar-se à mesa com os socialistas, para ensaiar votos conjugais.

A exceção é o PCP, casado em regime de comunhão geral de bens com as suas convicções - ou retórica empedernida, consoante os pontos de vista - e, portanto, o único que não procura noiva. O dote socialista, está bom de ver, é o poder. Ou seja, a identidade da noiva é circunstancial, o que interessa é o peso do clã. No que diz respeito aos pretendentes, poderia ser Seguro, como outro qualquer. Mas, sendo o dote constituído pela chave do poder, é diferente o uso que cada um dos pretendentes quer fazer da noiva.

Comecemos por Cavaco Silva. É o presidente eleito pela maioria dos portugueses - não confundir com presidente de todos os portugueses, como pomposamente se diz, confundindo facto institucional com facto social. O seu alinhamento apenas com uma parte do país ficou ainda mais claro no discurso feito no último aniversário do 25 de abril, tornando-se o valedor de um Governo já divorciado do seu povo e dos seus eleitores. Acontece que, entretanto, houve zanga na família da Direita e o patriarca tomou uma decisão radical: abandonava o regime monogâmico e adotava a poliginia, ou seja, o cabeça de casal (o PSD) assumia duas esposas, a que já tinha (o CDS) e uma segunda (o PS). Convém esclarecer, no entanto, que, com esta política de alianças, o presidente só na aparência fortalece o PS. Na verdade, esta segunda noiva é apenas necessária para uma relação simbólica. O resultado final será sempre o de reforçar o poder de quem já o via a fugir debaixo dos pés.

A pretensão de Passos Coelho é semelhante, mas o ponto de partida é diferente, uma vez que o segundo casamento foi-lhe imposto pelo paterfamilias. É certo, no entanto, que se adaptou rapidamente ao novo figurino de organização familiar. Assim, e ao contrário da esposa principal (Paulo Portas e o CDS), a quem já anunciou que entrega o governo da casa, a segunda noiva só lhe interessa na medida em que lhe garanta a manutenção do estatuto de cabeça de casal.

É suposto, portanto, que Seguro seja uma noiva submissa. Passos Coelho deixou claro, aliás, que o PS tem de abandonar essa "fantasia" segundo a qual o Norte da Europa vai pagar a dívida do país. Um ralhete à donzela solteirona que não sabe governar uma casa e que andava com a mania da emancipação. Que é como quem diz, a noiva tem de assumir a única política que apresenta resultados: a austeridade pura e dura, temperada com retórica de crescimento, para não cansar.

Chegou a pensar-se que a noiva diria, esta quinta-feira, se vai ou não ao altar. Mas, na política portuguesa, como em qualquer cerimónia de casamento, a noiva chega sempre atrasada. Seguro atrasou as explicações que prometera ao seu clã de origem e, dessa forma, ao conjunto dos portugueses. Ficámos sem saber se, para além do atraso, estamos perante um daqueles casos em que a noiva foge, à última da hora, ao casamento de conveniência.

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