Opinião

Centralismo eleitoral

É um dos paradoxos das autárquicas. São 308 eleições (tendo apenas em conta os municípios), com campanhas dirigidas a territórios e populações diferentes, com problemas e aspirações distintas. Mas, o que sobressai, por norma (em particular nas rádios e nas televisões), é a força mediática da "volta pelo país" de todos e cada um dos líderes políticos nacionais. As eleições mais descentralizadas do país são, por vontade dos aparelhos partidários, fortemente centralizadas na promoção do líder e da sua mensagem.

Claro que há um espacinho para o apelo ao voto no candidato local, e um ou dois minutos centrados na excelência das propostas locais, mas ao que vai a máquina partidária é ao banho de multidão do líder "lisboeta" (seja ele de origem ou migrante). Para que em horário nobre passem as propostas do líder (ou do partido) para o país, uma vez que, daqui a dois anos, já se sabe, há eleições legislativas, as que verdadeiramente contam.

Não surpreende, por isso, que, de cada vez que há eleições autárquicas, a noite eleitoral seja dominada por comentários e leituras nacionais. E que, nos dias seguintes, surjam as consequências, com destaque para as negativas (às vezes é mais lento, mas acaba sempre por definir a tática para os meses e anos que se seguem). Os que dominam o aparelho, a lamber as feridas e a tentar cicatrizá-las. Os que ambicionam chegar ao topo, a expor as chagas e a exigir mudanças. Em maior ou menor grau, é assim em todos os partidos, dos grandes aos pequenos.

E é também na noite eleitoral que os que ficam a perder no deve e haver a nível nacional mudam de discurso. Eleições locais não são eleições nacionais, não se podem fazer leituras nacionais, não é aceitável que se fale em consequências a nível nacional. Quem está no Governo não se sente fragilizado, nem acredita em castigos. Quem está na Oposição aceita o veredicto local do povo, mas não sente que o seu projeto para o país fique beliscado. É um dos paradoxos das eleições autárquicas. E mais uma prova do exacerbado centralismo do regime atual.

Diretor-adjunto

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