Opinião

Chantagem e tortura

1. Qualidade da democracia, pluralidade política, independência judicial, respeito pelas minorias e liberdade de Imprensa. São dimensões que a União Europeia já está a avaliar, em cada um dos países que a compõe.

A decisão não foi unânime, nem tinha de ser, e só por isso passou. Mas, agora que é preciso aprovar a capacidade da UE para emitir dívida pública (e financiar os 750 mil milhões do plano de recuperação), e quando, aqui sim, é imprescindível a unanimidade, os regimes autoritários, nacionalistas e xenófobos (Polónia e Hungria) mostram as botas cardadas, tentando travar a vigilância. É um jogo perigoso, em que será fácil cair na tentação de ceder à emergência. Olhemos para a nossa realidade: António Costa terá de decidir se quer atalhar caminho e receber sem delongas os 14 mil milhões a fundo perdido de que o país desesperadamente necessita, ou se bate o pé às ameaças à democracia e ao Estado de direito, correndo o risco de prolongar a nossa agonia económica e social.

2. A pandemia e as suas consequências sanitárias, económicas e sociais para os indivíduos e as sociedades são uma poderosa distração. Mas nada justifica que passemos à frente sem reagir às notícias que nos chegam da Grécia (belíssimo país que com facilidade se deixa enamorar pelo nacionalismo e xenofobia): a do pai afegão que viu morrer o filho de seis anos na travessia do Egeu, que as autoridades gregas acusam de uma espécie de homicídio negligente, por ter feito uma travessia que punha em perigo toda a sua família; e a do refugiado político que, chegado à mesma ilha de Samos, foi recambiado para a Turquia, no que os seus advogados consideram um castigo equivalente a tortura. Parece não haver limite para a crueldade humana. Note-se que não é apenas à Grécia que é preciso apontar o dedo. É sobretudo a política de acolhimento e de asilo europeia que vai a julgamento, num e noutro caso. À custa da destruição de umas quantas vidas. Que vergonha.

*Chefe de redação

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