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Opinião

Cigarras e formigas

1. São 26 profissionais de saúde (incluindo oito médicos) especializados em cuidados intensivos. Trazem consigo 50 ventiladores, 150 bombas de infusão e 150 camas. São militares alemães. E chegam hoje a Portugal.

Temos de lhes agradecer. Até porque, como disse o secretário de Estado da Saúde, é um sinal de que a solidariedade europeia funciona. Mas essa é apenas a leitura benigna. Porque há outra conclusão a tirar, menos simpática, e que explica a reação contrariada da ministra da Saúde, furtando-se a confirmar, em conferência de Imprensa, o que todo o país já sabia: a necessidade de receber apoio de outros países é também um sinal do nosso falhanço. Um falhanço coletivo, mas sobretudo um falhanço de quem tem a responsabilidade e o poder de priorizar as políticas públicas, ou seja, do Governo. Fica cada vez mais claro que a bonança de que gozamos no final da primavera e durante todo o verão não foi aproveitada para preparar os dias de tempestade. Nem na escola pública, nem no Serviço Nacional de Saúde, para citar os exemplos mais flagrantes. Optou-se pela descontração da cigarra, em vez do trabalho da formiga.

2. É também hoje que arranca a vacinação dos cidadãos com mais de 80 anos e dos que têm mais de 50 e padecem de determinado tipo de doenças. Não é expectável que haja, por agora, problemas de maior. O ritmo de entrega das vacinas por parte das várias farmacêuticas é ainda muito lento. A rede de centros de saúde está muito longe de ser verdadeiramente testada (apesar de estar cada vez mais direcionada para a pandemia e cada vez menos capaz de acompanhar todas as outras doenças). Em março, com dois milhões de vacinas para administrar (se os calendários não sofrerem novos atrasos), saberemos se o trabalho de casa foi feito a tempo e horas. Enquanto o teste não chega, vamos sofrendo de vergonha alheia ao testemunhar os sucessivos atropelos a que alguns não resistem, na miserável tentativa de passar à frente da fila das formigas. Dirigentes de IPSS, autarcas, funcionários do Estado, mais os filhos, cônjuges e amigos, cigarras que oferecem um espetáculo deprimente, agravado pelo facto de não se vislumbrar alguém com vontade e autoridade para dar um murro na mesa.

*Diretor-adjunto

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