Opinião

Costa ainda a fazer de morto

Costa ainda a fazer de morto

No último debate entre António Costa e António José Seguro, o agora líder do PS acusou o adversário de ter ficado preso à narrativa e às soluções do Governo. A resposta de Seguro foi honesta, certeira, e deveria ter servido para temperar a retórica de quem o desafiava: estava amarrado, isso sim, ao cumprimento de um memorando assinado, pouco antes, com a troika, por um Governo do PS, e numa altura em que Costa era o número dois do partido. Ou seja, amarrado a um compromisso com a política de austeridade.Disse ainda Costa, na réplica, que naquela altura (2011) era fácil fazer oposição, o difícil começava agora. Só parcialmente é verdadeiro. A fase mais difícil para o PS foi obviamente a primeira (com a complexidade de se assinar um compromisso político com a austeridade e produzir um discurso político alternativo à austeridade sem parecer um imbecil); passou a ser muito fácil pelo meio (e foi quando o Governo se começou a gabar de ir para além da troika no empobrecimento geral que Seguro começou a perder o pé e as elites e passou a ser apontado, com razão, como um líder incompetente); e volta agora a ser mais difícil.

António Costa beneficiou até ao momento do facto de não ser uma ameaça para além do espaço socialista. Pelo contrário, foi visto como o idiota útil que ajudaria a partir o PS ao meio, ou pelo menos em duas partes irreconciliáveis (veja-se o facto deselegante de não ter havido, no discurso do vencedor, uma palavra para o candidato derrotado). Útil ao PSD, que pôde voltar a sonhar que, somando os seus votos aos do CDS, talvez seja possível ser o mais votado nas eleições de 2015 (embora, a acontecer, não se perceba para governar com quem). Útil ainda ao PCP e talvez ao Bloco e seus sucedâneos, porque quanto mais roupa suja lava o PS, melhor canalizam o descontentamento. No entanto, e assegurada a liderança, Costa deixa de ser útil e passa a ser o alvo a abater: à direita como à esquerda. O PCP foi, ainda ontem, o primeiro a mostrar ao que vai: as primárias no PS foram uma "farsa".

O mais difícil recomeça efetivamente agora. Fazer oposição na pele de líder do principal partido de oposição não é o mesmo que discutir ideias em estúdio, de forma urbana e ordenada, com Pacheco Pereira e Lobo Xavier, para audiências politicamente alfabetizadas. Por outro lado, Costa ainda precisa de explicar como vai transformar em políticas as suas convicções. Finalmente, se insistir em ficar excessivamente agarrado, como até aqui, ao património do PS (ideias e pessoas) e à sua mera recauchutagem, então é sinal de que voltará a imperar a lógica do costume: prioridade à conquista do Poder, não interessa com quem, nem para quê.

Como ontem dizia o politólogo Adelino Maltez, com o excesso permitido às caricaturas, António Costa andou durante estes meses a fazer de morto (no que diz respeito a propostas e compromissos). E a julgar pelo fraco discurso de ontem, ainda não acordou. Ficou a saber-se que quer muito o Poder - "este é o primeiro dos últimos dias do atual Governo" - e foi muito aplaudido por isso, mas ainda não foi desta que se percebeu para que quer o Poder e como o vai exercer.

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