Opinião

Crianças decapitadas

O alerta da "Save the Children" é um soco no estômago: há crianças de 11 anos a serem decapitadas em Cabo Delgado, no norte de Moçambique.

Os suspeitos são os bandos de terroristas islâmicos que fomentaram uma insurreição armada num dos países mais pobres de África e do Mundo. Como testemunhava a irmã Aparecida, no JN de domingo passado, "quando entram nas aldeias, é sempre para matar". O seu relato é tão brutal quanto o da organização humanitária, mesmo que a freira brasileira não tenha a mesma força mediática: "Há pessoas que viram toda a sua família ser degolada, torturada".

Na verdade, não se sabe muito bem quem são (é provável que muitos não sejam moçambicanos), nem em quem se inspiram (há vagas referências ao Estado Islâmico), e ainda menos quem os financia. Mas há uma coincidência temporal suspeita entre a descoberta de grandes reservas de gás natural na região - diz-se que das maiores do Mundo - e o desenvolvimento do conflito.

Por outro lado, é evidente que ao Estado moçambicano faltam pelo menos os meios para assegurar a paz na região. Ao contrário, são frequentes as acusações de violência mortífera por parte das forças governamentais (um misto de polícias, militares e seguranças privados) sobre o seu próprio povo.

O efeito conjugado das catástrofes naturais, da pobreza endémica e da violência já fizeram com que mais de 600 mil pessoas abandonassem as suas aldeias. E a fome ameaça um milhão de pessoas, de acordo com várias organizações não governamentais.

É pouco avisado fazer juízos definitivos sobre um conflito que decorre longe dos olhares do Mundo e em que os testemunhos independentes escasseiam. Com a exceção de um punhado de jornalistas britânicos (Moçambique pertence à Commonwealth) e voluntários de organizações humanitárias, uma parte substancial da província de Cabo Delgado é terra de ninguém.

Apesar disso, a comunidade internacional, sobretudo quando é liderada pelo português António Guterres, tem o dever de propor (e até impor) uma qualquer forma de intervenção. E o Governo de Portugal tem a obrigação de mostrar que a organização que junta os países de língua oficial portuguesa serve para algo mais do que cimeiras inconsequentes. Voltemos ao princípio: há crianças de 11 anos a serem decapitadas. E ainda mais a morrer de fome.

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*Diretor-adjunto

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