Opinião

Cuspir para o ar

1. Cuspir para o ar é um dos nossos desportos favoritos (e já agora também de outros povos, que, mesmo usando palavras diferentes, têm metáforas com o mesmo significado).

Por cansaço, irritação, frustração, sarcasmo ou diversão, cuspimos uma sentença que, frequentemente, acaba por nos cair em cima. Não é um exclusivo do povo, também faz parte do acervo das elites. Veja-se o que se passou quando já estávamos de novo a ser atropelados pela pandemia, sem darmos conta. Os turistas britânicos fluíam aos magotes, trazendo com eles a libra esterlina e a variante Delta. Até o Governo de Sua Majestade retirar Portugal da lista verde. "Uma decisão cuja lógica não se alcança", reagiu, no Twitter, o ministro dos Negócios Estrangeiros. Boris Johnson não tugiu nem mugiu. O cuspo voltou a cair em cima do nosso Governo mas teve afinal origem em Angela Merkel, preocupada com a quarta vaga portuguesa. No fundo, diz-nos a chanceler alemã, o que a lógica ditava era manter a porta fechada aos ingleses. É provável que desta vez não haja "tweet" do ministro.

2. Dizem os especialistas que Portugal está, mais uma vez, a passar a famigerada linha vermelha dos 120 casos por 100 mil habitantes a 14 dias. Na verdade, é só uma parte do país (mesmo que seja aquela parte que muitos gostam de tomar pelo todo): a região de Lisboa já vai nos 223 casos (e a cidade nos 306). No extremo oposto estão o Norte (61) e o Centro (52). E se não é o país todo (também o Algarve acelerou para os 160 casos), então não é o país todo que tem de pagar o preço, seja congelando o desconfinamento, seja com o regresso ao confinamento parcial. O que é diferente tem de ser tratado de forma diferente. O raciocínio é linear, mas pode não vingar. Porque implica superar a visão centralista que domina a vida política e pública. E o Terreiro do Paço não gosta de se sentir cercado.

Diretor-adjunto

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