Opinião

Esperança ou tormenta?

Esperança ou tormenta?

Fazem sentir-se os ventos alísios que empurram em direção ao desconhecido. Há apenas um mês, qualquer um diria que, se houvesse eleições legislativas, tudo ficaria praticamente na mesma. Hoje, cruzado o Bojador das autárquicas e com a dúvida sobre se o Orçamento do Estado será o cabo da Boa Esperança ou das Tormentas, o país político já não é o mesmo. Os socialistas perderam Lisboa de vista e já não confiam nas cartas de navegar, temendo as surpresas que pode trazer o "mar tenebroso" em que às vezes se transforma o processo democrático.

O capitão-mor, recorde-se, não tem o poder absoluto sobre a frota. São vários os timoneiros e grande a discussão sobre o rumo a seguir. BE e PCP ponderam a hipótese de se amotinarem. Mas hesitam. Talvez porque a história nos indica (mesmo que se diga que não se repete) que aliar-se à Direita, para fazer cair um Governo à Esquerda, pode trazer-lhes dissabores. A última vez que o fizeram (2011), as velas rasgaram-se. Fosse na substância: em vez do PEC4 (austeridade suave), saiu-lhes a troika (austeridade pura e dura). Fosse na aritmética eleitoral: se considerados em conjunto, os resultados dos dois partidos mais à Esquerda foram penosos, passando de 31 para 24 deputados. Na altura, foi o BE que pagou a maior parte da fatura, perdendo 270 mil votos e metade dos deputados, enquanto o PCP ficou mais ou menos na mesma e até se reforçou com mais um parlamentar. Sucede que agora são os comunistas os mais expostos à tempestade, uma vez que se mantiveram por mais tempo no convés socialista.

No que diz respeito ao PSD, antecipar se terá alguma coisa a ganhar com legislativas antes do tempo é mais difícil do que a um navegador do tempo dos Descobrimentos descobrir um porto seguro. Seja como for, "navegar é preciso", primeiro para resolver a contenda interna e, depois, se os ventos estiverem de feição, para tentar o assalto ao leme da caravela. Sucede que Rio e Rangel não controlam o calendário, terão de seguir à bolina.

É só mais para a Direita (a económica e a ideológica) que a aventura promete maiores riquezas e menos sobressaltos. Sem qualquer responsabilidade nos erros de navegação, ainda sem títulos ou herança de família para defender, com escassa representação na corte, o novo mundo promete uma vida mais farta a liberais e populistas de Direita.

*Diretor-adjunto

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