Opinião

Ganham todos e nenhum?

Ganham todos e nenhum?

Depois de um ano de enorme turbulência política, social e económica (e alguns episódios de violência) hoje é dia de eleições na Catalunha. Fazer prognósticos sobre resultados eleitorais é sempre arriscado, mas, no caso catalão literalmente tem o mesmo valor que atirar uma moeda ao ar: pode cair para qualquer dos lados. Não porque as sondagens não sejam fiáveis, mas precisamente porque confirmam os resultados de eleições passadas: uma possível vitória em número de deputados para os independentistas, conjugada com uma possível vitória em número de votos para os constitucionalistas. Pode bem dar-se o caso de ganharem todos e não ganhar ninguém.

Assim, uma das poucas coisas que se pode dar por certa, mesmo antes de contados os votos, é que a sociedade catalã continuará partida rigorosamente ao meio. Porque nestas eleições não há catalães contra espanhóis (como pretende a retórica mais extremista que chega de ambos os lados da barricada), há, isso sim, catalães que querem deixar de ser espanhóis, contra catalães que querem continuar a ser espanhóis. E é provável que nenhum dos blocos chegue ao fim do dia de hoje com o balanço suficiente para se tornar hegemónico e acantonar a outra parte.

Outra das coisas que se pode dar por certa é que a liderança de cada um dos blocos passa a ser diferente. Do lado dos independentistas, o principal partido passará a ser, pela primeira vez, a Esquerda Republicana (em vez do Partido Democrático da Catalunha, de centro-direita, herdeiro de Jordi Pujol e Artur Mas). Do lado dos constitucionalistas confirma-se o fulgor do partido de centro-direita Cidadãos (em vez dos socialistas). Acontece que nenhum dos líderes destes dois partidos deverá conseguir tornar-se presidente do Governo regional. Oriol Junqueras, da Esquerda, porque está numa cadeia em Madrid (uma singularidade destas eleições), e Inês Arrimadas, do Cidadãos, porque será impossível contar com os votos dos deputados da marca local do Podemos (Catalunha em Comum), o provável fiel da balança entre os dois blocos.

Finalmente, também parece certo que estas eleições serão as mais participadas de sempre. Notável, se tivermos em conta que já em 2015 se bateu o recorde de 77% de participação eleitoral (a título de comparação, nas últimas eleições autárquicas em Portugal foi de 55%). Mas esta possibilidade torna o resultado final ainda mais incerto. Entre os (poucos) que habitualmente se abstêm, qual dos dois blocos conseguirá conquistar um ou dois pontos percentuais e cantar vitória? Porventura nenhum.

* EDITOR-EXECUTIVO

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