Opinião

A cidade do leite e do mel

A cidade do leite e do mel

Um trabalhador português leva para casa, ao fim do mês, em média, 887 euros (números de junho de 2018). Dá para viver com dignidade, dirão. A euforia estatística dura pouco. Desde logo porque as mulheres não têm a mesma "dignidade" que os homens: levam para casa menos 150 euros.

Ainda assim, o contraste de género não surpreende. Está na agenda mediática, e ainda bem. Mas há desigualdades com piores vistas para o Terreiro do Paço. Por exemplo, a menor "dignidade" que arrasta quem vive e trabalha noutra região do país que não Lisboa.

Quando se olha para as médias regionais, no centro imperial leva-se para casa 1032 euros por mês: mais 190 do que um trabalhador da Região Norte. Como se resolve esta assimetria? Basta sair da zona de conforto. Nada a fazer quanto ao facto de se ser mulher, mas a geografia pode fintar-se. Pelo menos entre os mais jovens que ainda não ganharam raízes a fazer sapatos ou a assentar tijolos nas províncias.

Duas medidas recentes do Governo ganham aliás uma nova leitura sob este prisma. Quando se garante um apoio de 157 euros por passageiro de transporte público em Lisboa (por oposição aos 84 do Porto ou aos 52 do resto do país), o que se pretende senão incentivar a migração para a capital? E quando se anuncia a construção de sete mil camas para estudantes universitários ali em redor do Tejo (por oposição às cinco mil do resto do país), o que se lê senão uma aposta na juventude nacional? Se um jovem do Norte, do Centro ou do Sul já sabe que, para garantir a "dignidade" salarial, terá de rumar a Lisboa, mais vale antecipar a viagem. Se é para fazer uma licenciatura, mestrado ou doutoramento, então que seja onde estão as oportunidades.

E em poucos anos, quem sabe, também os centros de saber hão de migrar do Porto, do Minho, de Aveiro ou de Vila Real, para de onde nunca deviam ter saído: o centro do império, a cidade prometida do leite e do mel (e dos passes e das camas).

Chefe de redação