Opinião

A crise do regime

A conclusão é de Marcelo Rebelo de Sousa: vem aí uma crise da Direita portuguesa. Coisa para durar anos. A frase foi dita em inglês, com audiência restrita, durante uma análise aos resultados das eleições europeias. Mas o rastilho era curto e os estilhaços projetaram-se rapidamente, já traduzidos para português.

Poderia ser mais um daqueles casos em que o presidente se distraiu com o papel de comentador, não se desse o caso de ter acrescentado que, num cenário de crise prolongada da Direita, e portanto de domínio à Esquerda, o único capaz de manter o equilíbrio é ele próprio. A intervenção de Marcelo é particularmente danosa para Rui Rio. Mas, se é certo que o líder do PSD é torpedeado, semana sim, semana não, pela sua família política alargada, a sua reação foi, como agora se usa dizer, populista. Traduzindo, disse ao povo o que o povo gosta de ouvir. Começou por alargar o âmbito da crise ao regime e acabou a propor a alteração da lei eleitoral, seja para fazer depender a dimensão do Parlamento do número de votos brancos e nulos (um castigo aos malandros dos deputados), seja para fazer círculos uninominais (em nome da aproximação de eleitos a eleitores). Não é que Rui Rio não tenha razão. O regime político está em crise. E nisso está alinhado com a maioria dos portugueses. Mas não é o número de deputados que explica o enfado dos portugueses. Sinal de crise do regime é ler que a comissão liquidatária do BES já fez a contas finais e vem aí mais uma conta de 700 milhões de euros para os contribuintes pagarem. Sinal de crise do regime é o processo de corrupção que envolve autarcas socialistas de câmaras de grande dimensão e o ex-presidente de uma instituição como o IPO do Porto. Sinal de crise do regime é a sensação de que nada escapa à teia dos que, nos mundos da finança e da política, se apropriam dos bens que são de todos. Essa é a crise que devia suscitar soluções a Rui Rio. E a todos os outros, incluindo o presidente comentador.

* CHEFE DE REDAÇÃO