Opinião

A farsa

1 - A contribuinte Maria Luís Albuquerque está desiludida com o Estado português. No início do ano passado, o Governo PSD/CDS prometeu-lhe, a ela e a todos os contribuintes, a devolução de uma parte da sobretaxa de IRS, caso as receitas fiscais superassem as previsões. Mais, criou no Portal das Finanças uma aplicação através da qual cada contribuinte, incluindo Maria Luís Albuquerque, poderia saber, a cada mês, quanto é que o Estado lhe devolveria no final do ano. Maria Luís Albuquerque, como todos os contribuintes, desconfiou de tanta fartura. Até porque estava bem ciente de que um ano eleitoral propicia promessas vãs. Mas os meses foram passando e, de cada vez que consultava o portal, o valor aumentava. Em finais de agosto, uma senhora muito parecida com Maria Luís Albuquerque, mas no papel de ministra da Finanças, garantia que a devolução seria de pelo menos 25%. A contribuinte Maria Luís Albuquerque já se imaginava a comprar um plasma novo para a sala. Em setembro, já dava para juntar uns sapatos, uma vez que, segundo o portal, já se atingia os 35%. Poucos dias depois, a nossa contribuinte foi chamada às urnas e nem por um instante hesitou. O seu voto foi direitinho para o partido daquela ministra simpática que sabia de Finanças e prometia providenciar o financiamento para um televisor, uns sapatos e sabe-se lá que outros mimos. Sucede que as eleições passaram, o PSD e o CDS não conseguiram os votos suficientes para governar e a devolução foi um ar que lhe deu. De repente, as receitas fiscais vieram por aí abaixo e acabou-se a festa. No Portal das Finanças o único número visível passou a ser o zero. E por estes dias lá apareceu a contribuinte Maria Luís Albuquerque na televisão, lamentando que as suas expectativas tenham sido goradas. Penso que no meio teatral é mais ou menos a isto que se chama uma farsa.

2 - Os sindicatos da Função Pública afetos à CGTP exigem a reposição do horário semanal das 35 horas e convocaram uma greve para amanhã. A primeira contra o novo Governo socialista. O tal que conta, entre outros, com o apoio parlamentar do PCP. Que não por acaso é o partido de que são militantes muitos dos mais importantes dirigentes sindicais. Acresce que o PS incluiu no seu programa a recuperação das 35 horas. E, pasme-se, até já fez aprovar no Parlamento uma proposta nesse sentido, no que foi acompanhado pelo PCP e pelo BE. Ou seja, está assegurado que os funcionários públicos voltarão à semana de 35 horas. A única dúvida é se a coisa se aplica a partir de amanhã, se daqui a uma semana. E ainda assim haverá greve. É o que se pode chamar uma greve à cautela. Penso que é a primeira. E, também à cautela, foi marcada para uma sexta-feira. Se é para perder o salário, ao menos que dê para fim de semana prolongado.