Opinião

Não fosse o amanhã…

Não fosse o amanhã…

A viagem decorria ao som do noticiário da Antena 1, dominado pela entrevista de Mário Centeno ao "Público", com dedicatória especial aos professores e ao seu peso no Orçamento do Estado. Areia capaz de causar problemas até em engrenagens afinadas, quanto mais em geringonças. Sendo que houve algumas ideias das que ficam no ouvido de muitos, e outras que ficam a envenenar os corações de uns poucos.

Na primeira categoria, a de que o Orçamento é feito para todos os nove milhões e meio de portugueses (e não para apenas 145 mil professores). Na segunda, a de que não há pior do que políticos impacientes, populistas, daqueles que querem seguir por atalhos que afinal são becos sem saída (como os dirigentes do Bloco e do PCP). O relato da rádio evoluiu dos recados do ministro da Educação, da Saúde e das Finanças (a acumulação de pastas não é uma distração), para a reação da corporação visada. Com destaque para Mário Nogueira, segundo o qual o ministro atira barro à parede, a ver se cola. Não cola, porque o líder da Fenprof acha inaceitável que os professores fiquem reféns do Orçamento (não aprofundou a questão do sequestro dos restantes portugueses), quando se pagam juros da dívida obscenos a agiotas internacionais (não clarificou que agiotas irão aceitar juros menos obscenos para pagar melhores salários aos professores).

Um sindicalista da Fesap, teorizou, por sua vez, sobre o bicho-papão, concluindo que, quando não sabemos se ele vem ou não, é inútil amedrontar as crianças. Foi nessa altura que me veio à memória, não a frase batida de Sérgio Godinho, mas uma que vi pintada, há uns anos, num muro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro: "Não fosse o amanhã, que dia agitado hoje seria". Eu também sei o que quero para quando não houver amanhã e for possível garantir um Orçamento sem reféns: cancelar a dívida pública e cobrar juros aos agiotas, aumentar o salário mínimo para o nível do Luxemburgo, instituir o pleno emprego, duplicar as pensões e acabar com o IRS e o IVA. Menos que isto, é inaceitável.

*EDITOR-EXECUTIVO

ver mais vídeos