Opinião

O autogolo de Ronaldo

O autogolo de Ronaldo

Quase parecia que Ronaldo tinha marcado um autogolo. Ou pelo menos foi o que sugeriram alguns dos que estão no lado esquerdo do campo. "Lamentável", atirou o deputado socialista João Galamba. "Ridículo", juntou José Gusmão do BE. Parece uma "máquina de propaganda norte-coreana", concluiu Yanis Varoufakis, ex-ministro das Finanças grego.

A esta hora, já o leitor percebeu que não se fala aqui do futebolista. Esse também foi notícia por estes dias, mas por ter partido o nariz a um guarda-redes. É do "Ronaldo do Eurogrupo", e concretamente do vídeo em que parabeniza a Grécia pela sua saída limpa dos programas de resgate europeus, que aqui se fala. Diz o Ronaldo dos outros e ministro nosso que a Grécia "retomou o crescimento económico", que "estão a ser criados novos empregos", que "a economia foi reformada e modernizada" e, cereja no topo do bolo, que há um "superavit orçamental e comercial".

Tirando os eurocratas, poucos partilham, da Esquerda à Direita, da visão do otimista Mário Centeno sobre o efeito da austeridade imposta aos gregos. A agência de notícias Associated Press fez uma cronologia cujo título talvez seja o que melhor sintetiza os últimos oito anos de vida dos gregos: "Desagradável, brutal e longo".

Mário Centeno até acrescenta que os efeitos do resgate ainda não são sentidos por toda a população. O que traz à memória uma outra frase, de um outro defensor da ortodoxia da austeridade, há quatro anos. "Eu sei que a vida das pessoas não está melhor, mas não tenho dúvidas de que a vida do país está muito melhor" foi a frase que fez o título de uma entrevista do JN a Luís Montenegro, então líder parlamentar do PSD. É mais ou menos o que diz agora Centeno aos gregos. Embora seja difícil perceber como pode a vida de um país (seja Portugal ou a Grécia) melhorar sem incluir as pessoas de que é feito.

*EDITOR-EXECUTIVO

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