Opinião

O cinzentão, o paraquedista e o salta-pocinhas de Gaia

O cinzentão, o paraquedista e o salta-pocinhas de Gaia

1. O socialista Eduardo Vítor Rodrigues não é um político mediático. Muita gente ainda se pergunta, aliás, porque escolheu o PS uma personagem aparentemente menor da política para candidato à Câmara de Gaia. Rodrigues não é, no entanto, um estreante. O presidente da Junta de Oliveira do Douro chegou a ser apontado, em 2009, como cabeça de lista à Câmara. Mas, nesse ano, acabaria obliterado como número dois de uma lista liderada pelo pior candidato que o PS conseguiu arranjar: Joaquim Couto, um paraquedista, velho dinossauro de Santo Tirso, então um desempregado da política. Acresce ao resultado desastroso uma prestação cinzenta de Rodrigues, durante os últimos anos, como principal rosto de uma inexistente oposição a Luís Filipe Menezes. Nada no currículo, portanto, que justificasse ser ele o candidato socialista a uma das câmaras mais importantes do país, sobretudo no momento em que sai um presidente carismático e em que as hipóteses de vitória poderiam ser maiores. Nada, a não ser o facto de ser presidente da Concelhia do PS. Ou seja, como principal trunfo perante os eleitores, tem para apresentar a sua capacidade de controlar o aparelho partidário. Não é um grande cartão de visita.

2. O social-democrata Carlos Abreu Amorim é um político mediático. É, aliás, um daqueles políticos que começou por brilhar na blogosfera e nos comentários televisivos, antes de se render aos prazeres da vida partidária. Dir-se-ia que é a antítese de Eduardo Vítor Rodrigues. Pura ilusão. Amorim rapidamente se converteu às forças de mudança e ao intenso cheiro a Poder que emanava do PSD de Pedro Passos Coelho. E, seguindo uma velha tradição de paraquedismo político, foi candidato pelo PSD em Viana do Castelo, acabando como lugar-tenente da bancada parlamentar do PSD. Uma ascensão meteórica no aparelho para quem tanto parecia prezar a independência. Depois da cena caricata em que se transformou a escolha do candidato do PSD em Gaia, Menezes tirou da cartola Carlos Abreu Amorim como hipotético sucessor. E temos que, depois de Viana do Castelo, Amorim salta agora de paraquedas para Gaia. Mas Amorim tem um problema: ser o candidato do PSD quando o PSD castiga os portugueses com austeridade, ainda por cima num concelho ao qual não se tem qualquer ligação, pode ser um obstáculo. Solução: aproveitar uma apresentação de candidatos a juntas de freguesia para pedir a demissão do ministro Vítor Gaspar, apesar de reconhecer o "sucesso nas suas políticas". Apetece citar Eduardo Vítor Rodrigues: "um discurso inócuo, contraditório, oportunista e esquizofrénico". Não é um grande cartão de visita.

3. José Guilherme Aguiar também é um político mediático. Só que a sua mediatização nada tem que ver com a política, antes com o facto de ter-se tornado num portista militante de primeira hora naqueles programas de alegado debate futebolístico que não faltam em nenhuma grelha televisiva, do canal mais visto ao mais rasteiro. À boleia dessa mediatização, foi fazendo carreira no PSD de Gaia, primeiro como presidente da Junta de Arcozelo, depois como vereador da Câmara de Gaia. Até que, em 2009, e segundo o próprio, foi "empurrado" em direção a Matosinhos. A coisa correu mal ao PSD, que teve um dos piores resultados de sempre; nem tanto ao candidato, que poucas horas depois da derrota já cozinhava um lugar de vereador a tempo inteiro, viabilizando o Executivo socialista, à revelia do partido que o elegera. Aguiar regressa agora a Gaia, zangado com a recusa do PSD, do qual chegou a ser candidato por um dia (foi rapidamente substituído por Carlos Abreu Amorim). Na apresentação da candidatura, para não variar, esqueceu-se da coerência: um salta-pocinhas que já foi paraquedista em Matosinhos não devia chamar paraquedista ao homem que o substituiu no PSD em Gaia. Mesmo que seja verdade. Não é um grande cartão de visita.