Opinião

O fantasma do caciquismo

O fantasma do caciquismo

Há seguramente argumentos sérios contra a regionalização do país. E também é natural que não haja unanimidade num tema que representaria um corte profundo com um centralismo político tão arreigado ao longo de séculos.

Sucede que, quando o que está em causa é a implementação desta revolucionária reforma política e administrativa, o argumento mais utilizado é francamente absurdo: o fantasma do caciquismo e da multiplicação dos tachos. Na verdade, é só mais um sinal do complexo de superioridade das elites instaladas (em sentido literal ou figurado) na antiga capital imperial, relativamente aos parolos da província. O fantasma do caciquismo e do dinheiro que assim seria desbaratado é uma forma de afirmar que a democracia, a verdadeira, a pura, a legítima, só é possível se for controlada pelas classes iluminadas pela célebre luz que incide sobre o Terreiro do Paço e arredores. E já se sabe que essas elites, ou já estão em Lisboa, ou vão estar. E aqui não há ironia. É factual.

A sondagem que o JN publicou há dias mostra que há neste momento uma avaliação favorável à regionalização por parte dos portugueses, numa leitura a nível nacional (51% a favor, 39% contra). Mas é simbólico que, entre a população das cinco regiões, apenas a de Lisboa se manifeste maioritariamente contra. Essa recusa, em contraste com a opinião favorável das gentes das províncias, também diz bastante sobre o país assimétrico em que vivemos. Sobretudo se repararmos em "pormenores" como a recusa de que sejam entregues, às futuras regiões, prebendas como a gestão dos milhares de milhões de euros de fundos comunitários que a elas se destinam, coisa que também divide Lisboa do resto do país. Como disse Rui Moreira, citando o pai, já terminada uma entrevista que pode ler hoje no seu JN, e em que também se falou da regionalização, não há ovelha que goste de ser tosquiada.

*Chefe de Redação