Opinião

Os javardos

O meu avô João Florindo não era homem para abusar dos impropérios. E ainda menos de obscenidades. Os dedos de uma mão sobrariam para contar as vezes que o ouvi soltar aquela expressão em que se usa a mãe para insultar o filho (e sempre com a mula como alvo). Mas como qualquer pessoa, também ao meu avô às vezes subia o sangue à cabeça. E era nessas raras situações que recorria à palavra que, quanto a ele, correspondia ao supremo insulto que se podia lançar a outro ser humano: javardo. Sendo que era preciso distinguir entre o uso da palavra enquanto substantivo (quando era usada para se referir ao javali, bicho que detestava, como qualquer agricultor que preze o campo de milho que tanto trabalho dava a construir e que o bicho destruía em poucos minutos) e enquanto adjetivo (quando era usada, em sentido figurado, para se referir a outra pessoa que considerava uma ameaça à sua e à nossa estabilidade).

Lembrei-me do meu avô a propósito dos ataques terroristas de Bruxelas e dos indivíduos que os levaram a cabo. Enquanto assistia às primeiras imagens do rasto de morte e sofrimento que espalharam, atirei-lhes várias das tais expressões em que se usam as mães para insultar os filhos. Não serviu de nada. São expressões já demasiado gastas no uso diário (à conta do tipo que acelera numa zona residencial onde brincam crianças, como à conta das trafulhices de um banqueiro, que depois somos chamados a pagar). E foi nessa altura que me lembrei do velho agricultor de Domingos da Vinha e da expressão que usava de forma bastante parcimoniosa: são uns javardos.

Acontece que, no mesmo dia em que, em Bruxelas e por toda a Europa, se rangiam os dentes e se choravam os mortos, do outro lado do Atlântico duas criaturas que aspiram ao lugar de líder do chamado mundo livre entraram numa espiral de afirmações perigosas que não fazem mais do que conduzir à guerra, ao ódio e a mais terror. Donald Trump, o candidato que lidera a corrida à nomeação para presidente dos EUA pelo Partido Republicano, aproveitou para insistir na institucionalização da tortura. Que se lixe a Convenção de Genebra. Ted Cruz, que vai em segundo na corrida, quer patrulhas policiais especiais nos bairros onde haja muçulmanos. Que se lixem os direitos civis. A troco de votos, optam pela demagogia e pela xenofobia. Em perfeita sintonia com a extrema-direita francesa e alemã. No fundo, caíram na armadilha dos terroristas. Radicalizam-se e garantem a perenidade da guerra, do ódio e do terror. É certo que é preciso dar combate aos assassinos. Mas, para que esse combate seja eficaz, é essencial cuidar do campo de onde germinam os valores da liberdade, dos direitos humanos e da democracia. Protegê-lo dos javardos, que não apenas dos terroristas.

*EDITOR EXECUTIVO