Opinião

Paddy, Le Pen e os patetas

Paddy, Le Pen e os patetas

O verão não se faz apenas de dias na praia, de refeições sem hora marcada, de conversas intermináveis noite dentro com os amigos, de livros de lombada grossa, de fotos de pés com a piscina em fundo, de cerveja fresca numa esplanada, de viagens para destinos próximos ou longínquos. Para que haja verdadeiramente a sensação de verão, são precisas, para além de memórias a sério como as citadas acima, umas pitadas do que se convencionou chamar "silly season" (estação pateta, para os menos entendidos em língua inglesa).

Cada um terá as suas preferências (por incrível que pareça, há quem não goste de fotos de pés na piscina), mas apreciei particularmente a polémica pateta relativa ao convite a Marine Le Pen, a líder da extrema-direita francesa, para que viesse discursar na próxima Web Summit. Comovi-me em particular com o alarido das redes sociais e com a indignação do Bloco de Esquerda (mesmo que já não tenha sido protagonizada por Ricardo Robles, agora a fazer pela vida no mercado da especulação imobiliária), enervei-me com o silêncio incompreensível de António Costa e Fernando Medina (quase parecia que tinham percebido que às vezes é melhor ficar calado, estragando o momento), e, finalmente, verti uma lágrima de crocodilo com o cancelamento do convite pelo Paddy Cosgrave, o empreendedor que organiza os comícios da cimeira digital e os jantares analógicos entre os mortos do Panteão.

Verti uma lágrima, não tanto por já não podermos contar com a presença em solo pátrio de alguém que recebeu o voto de mais de 10 milhões de franceses nas últimas eleições presidenciais (coisa terrível para a gente tão polida que vive nas redes sociais), mas porque o Governo manterá assim o subsídio de 3,9 milhões de euros que prometeu ao moço irlandês. Não se sentem agora devidamente patetas? É só porque não estão a lembrar-se de quem paga a conta...

*EDITOR-EXERCUTIVO

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