Opinião

Política com blush e rímel

Política com blush e rímel

Não sou um especialista em maquilhagem, mas arrisco o palpite: aplique-se apenas o quanto baste, para fugir a caricaturas: demasiada base e fica-se com o ar emproado do palhaço rico; demasiado blush na bochecha e fica-se com o ar esborratado do palhaço pobre. Não há aqui sexismo. É verdade que este é território sobretudo de meninas, mas não está vedado aos meninos. Menos ainda quando, como é o caso, a maquilhagem surge em sentido figurado. Ou, dito de outra maneira, aparece apenas para maquilhar uma incursão na política.

Sendo certo que a maquilhagem na política se tornou adereço indispensável, também para retocar propostas, não torna os políticos (e as suas políticas) mais atraentes. Ao contrário, tendem a gerar repulsa, como confirmam os altos níveis de abstenção. Para ver e ouvir gente com nariz de Pinóquio, antes o circo do que a assembleia de voto.

Os exemplos são abundantes mas fico-me por um recente. O Governo decidiu reduzir o número de vagas do Ensino Superior nas universidades públicas do Porto e de Lisboa e justificou a medida com a necessidade de empurrar os alunos do litoral para o interior. A medida era espetacular. Como os que estão no interior não querem ficar, e os que não estão não querem ir, o Governo usava argumentos de peso: ou aceitam ou, em vez estudarem para doutores, ficam para trolhas e esteticistas. Junta-se ao anúncio a maquilhagem política de um país descentralizado, e está feito. Ou talvez não. Afinal, mais de metade das vagas que se reduziram no litoral... ficaram no litoral. Sucede que um político maquilhador profissional tem sempre solução. Aplica-se um pouco mais de rímel aqui, atenua-se uma sombra ali, carrega-se no batom e temos novo guião: a redução de vagas em Lisboa e Porto passa a ser um estímulo à captação de estudantes estrangeiros. Maquilhados já andam, coelhos já têm, só falta a alguns políticos usarem a cartola.

EDITOR-EXECUTIVO

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