Opinião

Salvar as aparências

A comissão parlamentar de inquérito à CGD chegou ao fim e a satisfação entre os deputados era grande. Nomeadamente por esse feito raro de votarem as conclusões por unanimidade. A saber: a supervisão do Banco de Portugal foi incompetente (em particular a de Vítor Constâncio); a gestão da Caixa não foi prudente (em particular a de Carlos Santos Ferreira); a intervenção dos governos pecou por ação ou omissão (em particular a de José Sócrates).

Apesar da amnésia das testemunhas em geral (e dos picos de obscenidade de algumas delas em particular), não são conclusões surpreendentes. E bastou que alguém fosse um pouco além do óbvio, para se desfazer a unanimidade. Por exemplo, a ideia, defendida pelos sociais-democratas, de que anda por aí um grupo de gente poderosa em que se percebe um "padrão de encobrimento", recurso à "falta de memória", uso do "silêncio" ou "concertação da narrativa". No fundo, "um grupo restrito de pessoas e empresas que beneficia e concede entre si tratamentos privilegiados", sacando "vantagens" que normalmente resultam em "sacrifícios" para os outros. Não sei se os deputados do PSD, que propuseram esta ousadia, e os do BE e PCP, que a subscreveram, se deram conta de que é uma definição possível para organização mafiosa. Mas ficou claro que é conclusão demasiado forte para os estômagos sensíveis dos deputados do CDS (que se abstiveram) e do PS (que votaram contra).

Ainda assim, anunciou-se o "sentimento de dever cumprido". E percebeu-se no dia seguinte que se respira um novo ar. O Banco de Portugal, contagiado pela onda de revelações, divulgou a lista de grandes devedores, que conduziram à falência da Banca e à injeção de 24 mil milhões de euros de dinheiro público ao longo de uma década de descalabro. Divulgou, mas em modo polido. Em vez dos nomes dos que contribuíram para nos levar à ruína, ficámos a conhecer códigos numéricos. É como com as conclusões unânimes da comissão parlamentar: não servem para nada, mas salvam-se as aparências.

*Editor-executivo