Opinião

IRS, papas e bolos

António Costa está em campanha. À procura de uma vitória nas urnas e nas bancadas do Parlamento. O mesmo trunfo serve para as autárquicas e para o Orçamento do Estado: a promessa de uma redução do IRS para quem trabalha.

O pregão foi testado durante uma entrevista pré-congresso, foi repetido, em tom mais juvenil, durante o encontro com a militância, e voltou a ser o ponto central de uma entrevista à televisão, quando faltam pouco mais de duas semanas para as eleições.

Mesmo que seja "poucochinho" (termo trazido para o léxico político pelo atual primeiro-ministro), sente-se no bolso (no caso, adivinha-se no bolso), ao contrário, por exemplo, dos milhares de milhões do Programa de Recuperação e Resiliência, que têm muito glamour, muito néon, mas não ajudam a pagar a conta da luz, o gasóleo do carro ou as sapatilhas e as propinas dos filhos.

Que não haja dúvidas, como até Rui Rio é obrigado a conceder, mesmo quando mais precisa de marcar diferenças: tudo o que seja baixar a carga fiscal é bom. Mas não é sinónimo de generosidade. Normalmente, parece melhor do que é. O que conjuga bem com a arte de prestidigitador, que António Costa domina como poucos. Sobretudo no que diz respeito ao IRS, aquele imposto que faz com que cada português se sinta deprimido a cada final do mês (os que o pagam, uma vez que 45% dos agregados familiares portugueses não ganham sequer o suficiente para liquidar IRS).

Os que já trabalhavam em 2012 hão de lembrar-se do "brutal aumento de impostos" com que foram brindados por Vítor Gaspar e Passos Coelho. Em 2013, a receita com o IRS subiu três mil milhões para os 12,3 mil milhões.

Costa chegou ao Governo em 2015 e, nos dois anos seguintes, a receita estagnou. De então para cá, mesmo com o "poucochinho" que vai desonerando, o IRS continua a bater recordes. Incluindo em 2020, o tal ano de maior impacto da crise, em que chegou aos 13,5 mil milhões de euros.

O crescimento da economia e dos salários explicam a subida. Mas também demonstram que seria possível aliviar um pouco mais a canga fiscal. Assim, só dá para umas papas e uns bolos.

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*Diretor-adjunto

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