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Já não há palhaços

Já não há palhaços

1 Se não há dinheiro, não há palhaços. Uma expressão que traduz a situação financeira e política em Portugal. Se alguém tinha dúvidas, o ministro das Finanças tratou ontem de as desfazer. Mário Centeno pretende, no Orçamento do Estado do próximo ano, fazer o mesmo que já fez para o que está em vigor: reduzir impostos diretos e compensar a consequente quebra de receitas com o aumento dos impostos indiretos. Ou seja, em 2017, o fim da sobretaxa e a mexida nos escalões do IRS serão compensados com aumentos de outros impostos. Interessa pouco saber quais serão (sendo certo que o leque é escasso). A estratégia permite ao Governo manter o discurso da aposta na política de devolução dos rendimentos, o que é bom. Mas não permite manter a ilusão do crescimento da economia por via do estímulo ao consumo. Porque o rendimento conseguido a mais por cada trabalhador através do IRS lhe fugirá por entre os dedos através de outro imposto qualquer. Para gastar mais, ao cidadão só restaria seguir o exemplo do Estado: endividar-se. Pouco aconselhável quando a maioria tem dívidas antigas e avultadas por pagar. Com uma dívida pública astronómica (e impagável) que não para de subir, com a ameaça de sanções europeias no caso de não se cumprirem os limites do défice, o anúncio do fim da austeridade é prematuro. É uma austeridade diferente, é um facto. Mas, ainda assim, é austeridade. O resto é circo. Sem palhaços, que não há dinheiro.

2 Não se deveria distinguir entre desempregados de primeira e desempregados de segunda. Não se deveria olhar de forma diferente para os desempregados que o são por uma boa ou por uma má razão. Acontece que, pelo menos por omissão, essa distinção fez-se. O princípio do fim dos contratos de associação entre o Estado e os colégios privados obedece a princípios lógicos e justos de valorizar a escola pública e não desperdiçar recursos coletivos. Mas todas as moedas têm duas faces. E sabia-se, desde o princípio, que a decisão do ministro da Educação iria gerar desemprego entre centenas de professores e funcionários dessas escolas privadas pagas pelo Orçamento do Estado. Não se notou é que alguém se tenha preocupado muito com isso. Não houve qualquer esboço de iniciativa política e pública que ajudasse a minorar o sofrimento de quem ia perder o emprego. Quanto aos sindicatos, ignoraram cinicamente o problema (vir agora chorar sobre o leite derramado não conta). Recordo, aliás, que Mário Nogueira, líder da Fenprof, aconselhou os professores dos colégios a concorrer a lugares na escola pública. Como se não soubesse que o único resultado dessa tentativa seria o de engrossar a lista dos que, todos os anos, em setembro, correm desesperados para os centros de emprego.

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