Opinião

Lições da Catalunha

Os catalães foram às urnas no fim de semana e vale a pena destacar três factos. O primeiro é que a Catalunha continua partida entre duas posições inconciliáveis: os que apoiam e os que rejeitam a independência. O sistema eleitoral e a subida da abstenção contribuíram para uma maioria reforçada de partidos independentistas.

O problema é que voltará a ser a única cola de um futuro Governo que juntará formações ideologicamente tão distintas como a Esquerda Republicana (centro-esquerda), o Juntos pela Catalunha (centro-direita) e os socialistas revolucionários da CUP. É suficiente para alimentar a contestação nas ruas, mas insuficiente para tudo o resto. Vêm aí mais anos de polarização política e estagnação económica e social.

O segundo facto a destacar é que um dos vencedores foi a extrema-direita. O Vox passou a ser a quarta força política da Catalunha e vale mais do que a soma de Ciudadanos (centristas liberais) e Partido Popular (Direita conservadora). Um resultado problemático para Pablo Casado, líder do PP, que em outubro encenou um divórcio com os extremistas, ao rejeitar o apoio a uma moção de censura ao Governo socialista de Espanha. A retórica não passa no crivo: há vários governos regionais e dezenas de autarquias liderados pelo PP e Ciudadanos graças ao suporte formal dos herdeiros da Falange franquista. Entre as cópias e o original, os eleitores escolheram a autenticidade, como em sucessivas eleições desde a estreia, em 2017, na Andaluzia. PP e Ciudadanos normalizaram o extremismo e são agora engolidos por ele.

O terceiro facto é uma lição de democracia. Na Catalunha - ao contrário do que tinha acontecido na Galiza e no País Basco, e, já agora, nas presidenciais portuguesas - cumpriu-se o princípio da universalidade do voto: ninguém ficou para trás, nem mesmo os infetados com covid-19 ou os cidadãos que estavam em isolamento profilático. Alguns minutos antes das 19 horas, os elementos das mesas de voto vestiram equipamentos de proteção individual completos, os mesmos que se usam nas unidades de cuidados intensivos, e receberam os que, mesmo limitados pela pandemia, quiseram sair para votar. Pode ser uma sociedade fraturada, mas também é uma sociedade que pratica a democracia.

Diretor-adjunto

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